Reinaldo José Lopes: Além de Darwin

Soube do trabalho de Reinaldo José Lopes através do Ceticismo Aberto. Ele ia ser entrevistado em algum lugar, ou fazer um podcast, ou fazer algum liveblogging, ou seja, ia fazer alguma coisa que eu não iria acompanhar. Em parte por princípios, em parte por preguiça mesmo.

Apesar do evento em si não ser interessante, entretanto, Lopes estaria lá para falar de seu livro, Além de Darwin. “Opa, livro, estou dentro!”. E ele vendia pela internet, de uma forma simples e pessoal. Entrei em contato, e comprei o meu.

Lopes faz parte da nobre linhagem dos divulgadores científicos, esta tropa tão necessária nos obscuros dias atuais. São dias de notícias duvidosas, de aquecimento global e gripes suínas, só para citar dois tópicos mal-compreendidos por todos e manipulados por alguns.

Ainda que descenda intelectualmente de Dawkins e Pinker, Lopes tem lá algumas características especiais, que ficam claras em seu livro.

Primeiro, ele é um jornalista que se encaminhou para a divulgação científica, e não um cientista que se meteu a escrever. Isto fica claro no tamanho dos artigos, e também no estilo mais neutro de construção do texto.

Segundo, Lopes cresceu no Brasil e em um meio onde a internet era natural. Suas referências são de uma cultura pop mais nerd do que as de seus inspiradores, e seu texto se aproxima do leitor com um certo ar de blogue. Em algumas passagens o humor interrompe o fluxo do texto com algum risco para a boa fruição, mas log Lopes retorna aos trilhos de sua linha pré-definida.

Terceiro, a forma como os capítulos ou artigos são dispostos lembra muito a forma como canções são colocadas em um disco. Existe um certo ritmo, uma certa relação entre as “faixas”, e o final do livro parece remeter ao começo, como em uma boa bolacha de música pop.

Os textos têm a virtude de unir a tradição da divulgação científica à lembrança, em minha cabeça, das peripécias de Huguinho, Zezinho e Luizinho na famosa Enciclopédia do Escoteiro. Tratava-se de uma lista simples e concisa de curiosidades e técnicas, algo perfeitamente formatado para o moleque leitor e curioso que eu era.

Deus, eu amava aquele livro. Algum colega de colégio tinha, e eu vivia na casa dele lendo. Acho que havia uns exemplares em uma biblioteca que eu freqüentava também. O fato é que eu tenho apenas um exemplar, ganho em uma negociação com um colega que havia perdido uma fita cassete emprestada por mim, ou algo equivalente.

Carl Sagan ia gostar do indivíduo Lopes. Este é um cara católico e evolucionista, uma pessoa que tem a liberdade de falar a facções opostas sobre um tema espinhoso, algo que seria menos legítimo em um agnóstico como eu. Aliás, na foto da orelha do livro Lopes parece o cientista da versão cinematográfica de Partículas Elementares.

Este é um livro que eu recomendaria mesmo ao pessoal da proteção animal. Fala-se pouco sobre experimentos, embora o leitor esclarecido continue sabendo de que espécie de experimento eu estou falando. Lopes, entretanto, demonstra seu carinho e respeito pelos animais o tempo todo. Eu penso que o principal efeito colateral da divulgação científica nas pessoas deveria ser este mesmo: nos aproximar das outras formas de vida que habitam nosso planeta, mitigando nossa milenar arrogância de pretenso “ser mais evoluído”.

Um trecho, da página 93:

(…)
Acima de tudo, porém, elas (as bases moleculares da interação entre aproveitador e vítima) revelam como é vã a visão dos seres vivos como uma escada hierárquica, com criaturas mais “evoluída” (feito nós) no topo, e outras “primitivas” rastejando lá embaixo. O T. gondii não precisa de cérebro nem de órgãos dos sentidos – aliás, não precisa nem de um corpo macroscópico – para manipular a criatura com a mente mais complexa do Universo conhecido. Se esse não é um argumentos mais indiscutíveis em favor de uma humanidade mais humilde, eu não sei qual seria.
(…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para Reinaldo José Lopes: Além de Darwin

  1. Roberta disse:

    realmente, deu vontade de ler =D

    bjo!

  2. Gaby Branda disse:

    Eu comprei o livro qdo lançou, mas até hoje não li. Depois dessa resenha, pretendo mudar isto.

  3. Milene disse:

    Este conceito de especismo, assim como tantos outros de grande relevância, deveria ser pensado desde o primário. As crianças absorvem e interpretam estas informações de maneira menos preconceituosa. Quem sabe assim construiríamos um futuro de pessoas menos arrogantes. Ahhh, utopias…

    Vou colocar este livro na fila dos que eu pretendo ler! E aproveitando o assunto sobre arrogância, especismo, experimentação e o fato de tu gostares de ler, deixo como dica (caso não tenhas lido ainda) o livro “Instrumento animal – O uso prejudicial de animais no ensino superior” que contempla vários artigos, de profissionais de áreas distintas e é organizado por Thales Tréz (graduado em ciências biológicas). É um livro bem interessante (retirando, em minha opinião, alguns pequenos trechos conduzidos com emoção excessiva, mas que de forma alguma comprometem a relevância da obra)!!

    Abraço!

    • gilvas disse:

      bom, eu ainda estou lendo uns trechos dele, mas empresto em seguida, de boa. mas este tem de voltar, afinal é um exemplar com dedicatória do autor a este que vos escreve.

  4. Ana Corina disse:

    Uau, o menino está produtivo!
    😉

  5. Jux disse:

    Sensacional!
    Lembrei de um professor do cursinho lá em Curitibacity, no pré-vestibular a fiz há… 5500 anos… Enton! O cara tinhas umas viagens incríveis sobre biologia e ele falava coisas incríveis, do tipo “chuto-seu-rabo-da-zoninha-de-conforto”. E lá vinham pérolas do tipo “E tu (aluno-pré-vestibulando), achas que é melhor do que tudo tudo tudo que existe no universo? Olha a bactéria, o vírus: os caras são as estruturas de vida das mais simples e olha O QUE ELES PODEM FAZER COM VOCÊ!”
    Lembro-me das caras horrorizadas dos pequenos-burgueses (eu, excluída disso), indignados com a queda do tal-pedestal-especista propiciada pelo professor gaúcho!
    Puxa! Quero-preciso-VOU ler esse livro!!!
    Brigadas pela dica!

    Beijukiss!

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