Saudades da Irma

Assino as tirinhas diárias do Garfield, e elas chegam na minha caixa de email. Tem gente que torce o nariz, diz que prefere o Calvin. Vendo este comportamento, observei que Garfield está para Depeche Mode assim como Calvin está para New Order. Tem gente que tem vergonha de gostar de Garfield. Um crime.

Jim Davis possui o mérito inegável de ter mantido uma tirinha sindicalizada interessante mesmo depois de trinta anos. Sim, Garfield começou a ser publicada em 1978. Teve altos e baixos, mas continua trazendo uma média mínima de 50% de acertos, algo difícil nos tempos bicudos em que vivemos.

Talvez Garfield tenha aparecido em lancheiras demais, cartões demais, filmes demais, filmes ruins demais. Aliás, eu também não gosto das animações; as dublagens nunca ficam boas. Eu gostava dos cartões, mas apenas quando o Garfield era sarcástico e ácido. Este Garfield dos cartões atuais parece-se demais com uma camiseta do Eufrazino que ganhei muito tempo atrás: o jeca rabugento está sorrindo na estampa, vejam só!

Jim Davis soube cuidar de sua obra. Cortou os personagens obsoletos logo no começo. O primeiro que dançou foi o Lyman, que morava com o Jon. O Lyman, de cara, poderia causar confusões sobre a sexualidade de Jon. Nosso cartunista suburbano é um perdedor, e não um gay. Mesmo morando sozinho e tendo um gato. Esta situação poderia ser interessante para a militância GLBT, mas não funcionaria no cartum.

E Lyman tinha um bigode. Ninguém merece morar com uma pessoa que tem um bigode.

Um dos maiores triunfos de Davis foi ter guardado a tensão de Jon com a veterinária Liz durante mais de vinte anos. Jon deve ter sofrido com a espera, mas os leitores ganharam muito com ela. Agora Davis coloca as situações do primeiro relacionamento sério de Jon a conta-gotas, nos divertindo horrores.

E o quê que a Irma tem a ver com isso? Bom, a garçonete despirocada é um personagem dos primeiros anos de Garfield. Ela rendia situações maravilhosas ao balcão de seu boteco, e concentrava, naqueles tempos, boa parte das injeções de surrealismo da tira.

Eu vi as tirinhas desta semana, e lá estava Irma. Percebi que estava com saudade dela. De certa forma, estava com saudade do mundo que existia ao meu redor em 1989, quando conheci Garfield para valer. Estar no balcão de Irma é, enfim, abrir uma janela para aquele universo de vinte anos atrás.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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11 respostas para Saudades da Irma

  1. Thiago disse:

    Nossa, tô defasadasso de Garfield. Leio desde moleque, tenho 12 dos 14 livros de tirinhas publicados no brasil… em uma época em que as coisas, definitivamente, não chegavam por sua caixa de emails (e nem em floripa, diga-se de passagem).
    Em uma aula do inglês, o professor comentou: “clássicos são aqueles que estão sempre atualizados, são atemporais; a cada vez que você os lê, o novo vem à tona, e não a mesmice”. Garfield tem essa propriedade comigo.

    P.S.: achei que leria uma crítica, por mínima que fosse, do Nermal… 🙂

    • gilvas disse:

      o nermal marcou uma era do garfield, realmente, mas eu curto a abordagem neil gaiman: pegar um personagem meio apagado e esquecido. nesta linha, eu trabalharia o carteiro ou o doc, irmão do jon. a bertha seria interessante, apesar de eu achar que a fase atual do jon, namorando a liz, não conseguiria englobar aquela “mulherona”.

  2. Carlos Rosasse disse:

    Opa, Givas!
    Meio longe do dojo, em Macaé, novo assalariado da petrobras…
    Mas, esta semana, como sempre leitor do garfield e recebo as tiras dele, também fiquei alegre com a volta dessa personagem, que em anos passados deixava as tiras um pouco mais “alteradas”…rsrsrs
    Valeu, abs.

  3. TURNES disse:

    Acho Garfield legal e tudo. Mas não acho que Jim Davis tenha cuidado bem de seu personagem. Cuidou foi do seu bolso. Nada contra, mas a profusão de licenças, em sua grande maioria usadas para o mal (vide os filmes) provocou uma certa ojeriza em quem não conhece a origem tira do gato. Por demais banalizado. Jogando em estratégia oposta e movido por ideário invejável, Bill Waterson jamais vendeu Calvin pra nada, o que repercutiu numa certa aura de intocabilidade e pureza da criação. Agora, caro escriba, a comparação Depeche e New Order é por demais abstrata, boiei..desenvolva….

    • gilvas disse:

      então.

      jim davis vendeu sua criação, não tenha dúvidas quanto a isso, mas eu me referia especificamente aos roteiros das tiras. davis segurou determinadas tensões, como a da veterinária, por mais de duas décadas. dentro de uma tira comercial, isto é uma virtude. sobre waterson, minha pagação de pau está no texto “Sabedoria”.

      o depeche mode nasceu com a aura de boy band, e isto nunca se dissipou por completo. a banda ficou estigmatizada, e só foi dar a volta por cima, unindo público e crítica, em music for the masses. o new order, por outro lado, “nasceu das cinzas do joy division”, aquela frescurada toda de respeito pelo passado com o ian curtis. isto os protege daquelas fases vergonhosas em que o barney sumners estava tentando fazer discoteque italiana nos discos do NO.

      bom, é papo para boteco. longo papo de boteco.

      • TURNES disse:

        ah tá…
        bom, são criaçoes tão diferentes , digo garfield e calvin, em temática, linguagem, estilo e intenção, que acho qualquer comparaçao forçosa (mesmo a que eu fiz, sobre comércio).

        e o que estou eu fazendo discutindo quadrinhos em dia de estreia…só tu mesmo.

  4. anasouenaosou disse:

    Testando gravatarfeitoparaapaziguaramigomala 1, 2, 3…

  5. Ana Corina disse:

    hahaha Tenho que rir. Acordar TÃO cedo talvez não te faça TÃO bem assim, viu? 😉

    Sobre o novo trecho… Well… Falamos pessoalmente, kkk.
    😉

  6. Ana Corina disse:

    Nhóóó, que saudosista o meu friendo
    😉

    E que mania estúpida das pessoas essa de “se isto é assim, logo aquilo é assado”, arf!

    • gilvas disse:

      há o perigo dos extremos, entretanto: vocês devem conhecer algumas pessoas que gostam de tudo, os tais “ecléticos”. agh!

  7. Roberta disse:

    garfield é mto massa… não sei pq tem gente que pensa que se gosta de A não pode gostar de B. não sei se é coração ou cabeça pequena.

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