Turnes & Bittencourt: O Fantástico Homem Que Imita a Si Mesmo

Estréia é um troço complicado. Imagino o que é a sensação de um compositor que mostra a sua nova canção para o público em um palco. Ainda que a canção já tenha passado por crivos diversos, tais como o crivo da banda, o crivo das tietes do estúdio, o crivo dos amigos, ou até mesmo o crivo da mãe do sujeito, presumo que seja um monte de ansiedade e camadas de antecipação tremelicante.

Olafur Arnalds toca aqui nas caixinhas da minha microla, emprestando sua musicalidade glacial que casa tão bem a esta melancólica manhã. A gatinha está sobre o sofá, junto à janela, e parece que o cinza das suas costas se comunica às nuvens que caminham para o Morro da Cruz como se fossem figurantes do clipe de Atmosphere.

Renato Turnes estreou ontem com a parte final da Trilogia Lugosi. Alguns anos se passaram depois de eu ter visto Coração Delator nos espaços restritos do Teatro Armação. O teatro do Sesc Prainha é maior, e mais neutro. Suas paredes se eximem de qualquer conivênvia com o grande móvel escuro que domina o centro da cena.

No centro do móvel, uma peça que se disfarça de espelho e que se adivinha um dos recursos de cena. Turnes surge no centro do espelho como se fosse o iconográfico personagem de Branca de Neve. Sua cabeça flutua corretamente naquilo que poderia ser entendido também como um aquário.

Os recursos tecnológicos abundam agora, em contraste com a crueza artesanal de Coração Delator ou mesmo de Outsider. São projeções que conduzem trechos inteiros da peça, ou fumaça que preenche o volume do palco com uma tactibilidade quase real. Será curioso assistir a todos os capítulos da trilogia nas próximas semanas, e observar as diferenças de concepção e condução. Não falo aqui de comparações quantitativas ou qualitativas, mas de um contraste entre as luzes estudadas de Outsider e os volumes percebidos em O Fantástico Homem que Imita a Si Mesmo.

O contraste se dá já no texto. Poe e Lovecraft forneceram a Turnes e Bittencourt narrativas tensas, que emanam de um protagonista que parte de uma débil compreensão de sua condição para ser inserido, e aí entenda-se a inserção do espectador também, em uma dimensão dilacerante da alma humana. Bonassi, por sua vez, nos brinda com um herói existencialista, que vive descolado de si mesmo. Ainda que haja uma implosão final, contendo a descoberta e a aceitação por parte do protagonista, ela já está tatuada no bebê que finge dormir, ela não é um desenvolvimento tardio.

Apresentações no Sesc Prainha quase sempre contam com infantes na platéia, o que causa uma antecipação tensa, de matizes homicidas, neste que vos escreve. Felizmente, não houveram incidentes com as crianças em questão, o que rapidamente foi compensado por alguém batendo à porta do teatro. Há momentos em que cogito trabalhos forçados como punição aos incivilizados desta cidade.

Gostei dos recursos tecnológicos a que aludi acima, mas o espelho traz alguns incômodos. Quando Turnes fez a segunda intervenção dentro da tela, o truque da cabeça voadora, eu podia ver claramente uma pessoa à direita de seu reflexo, e ela trajava uma camisa branca. O efeito da tela perdeu, assim, parte de sua força. Não imagino como resolver isso, mas fica a dica.

Um momento particularmente é a inserção da imagem de arquivo de Bela Lugosi. Ela fecha, obviamente, com o conceito da trilogia que o ator húngaro nomeia, mas torna-se marcante porque evidencia a dualidade de Lugosi. O monstro surge sob a superfície de uma pessoa, e este monstro se mostra comovente, humano a ponto de nos arrastar às catacumbas de nossa própria incompreensão. O paralelo, enfim, funciona perfeitamente.

Particularmente, não gosto de ir em estréias. Exceto quando é um caro amigo quem está estreando. Estréia, tal como tratei no primeiro parágrafo. Os elementos ainda estão terminando de se organizar, o tom de uma fala ainda não encontrou exatamente a harmonia com um determinado gesto, e, o principal, a lentidão correta de cada gesto ainda não foi burilada o suficiente. Estive na estréia de Outsider, e ocorreu-me a mesma coisa. Outsider, em minha primeira percepção para valer, só rolou na segunda vez em que vi. A gente gosta da estréia, até, mas o envolvimento ocorre apenas à segunda vista.

***

Uma curiosidade: as falas finais do texto original de Poe para Coração Delator foram usadas na introdução deste disco. Vale uma audição, pelo texto e pela música.

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Sobre gilvas

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2 respostas para Turnes & Bittencourt: O Fantástico Homem Que Imita a Si Mesmo

  1. nanda disse:

    obrigada pela descriçao sensível.
    impossibilitada geograficamente de prestigiar meu querido super-Turnes, fico feliz de poder pelo menos ler o que acontece por aí, e imaginar na medida do possível. a historia do espelho me intrigou, btw!

  2. mafra disse:

    nem vou ler. quero antes ver a peça…

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