Extraño

extrano

Tive meia dúzia de aulas de espanhol. Fracas. Estou muito próximo à estaca zero. Apesar do espanhol ser um idioma assemelhado ao português, não me sinto à vontade com ele. A proximidade, provavelmente, me intimida.

O verbo “extranãr” significa algo como “sentir falta de”, conforme consultores fidedignos confirmaram. Considerando que a falta desenha um vetor de vontade da pessoa em direção àquilo de que ela sente falta, pressupõe-se a existência de um querer, um desejar.

Em português coloquial, uma pessoa pode estranhar algo, ou outra pessoa. Desta tensão, paradoxalmente, pode surgir um vetor de atração. Dada a existência da atração, novamente estamos no caminho de querer ou desejar.

Ocorre, na vida real e cotidiana ou num episódio de Friends, também o contrário. Pessoas que nada vêem de estranho uma na outra se encontrarão na parte final do dipolo proposto por Silvio Santos nas tardes de bailinho do SBT. Para estas, nada de bitoquinhas ou conta conjunta; nada que as impeça, porém, de compartilhar horas e horas de conversas despretensiosas.

A estranheza do outro tem seu lugar garantido mesmo em relacionamentos de durações maiores. Ou alguém nunca descobriu um mistério da cara metade depois de anos de namoro? Há quem desconfie e assuma ares de cobrança, claro, e deve ser despachado imediatamente para o castigo, mas as pessoas civilizadas sabem deixar espaço para a vida do outro.

Wilde tem um conto, muito bom, intitulado A Esfinge Sem Segredo. Eu poderia falar sobre ele, mas pensei que você poderia verificar por si mesmo. A versão integral está aqui. Tem algo a ver. Mesmo que tu aches estranho.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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7 respostas para Extraño

  1. Mario Tessari disse:

    Ótimo texto. Análise profunda. A frase do Caetano irá para nosso quadro de varanda.
    De fato, o comportamento dos personagens do Oscar Wilde em A ESFINGE SEM SEGREDOS retratam a burguesia de todos os tempos, que vive de rendas, desfrutando de futilidades. Como você escreve “criaturas distintas” (distintas nos dois sentidos…); bem distintas do realista Mario Tessari. Bem estranho, para mim, portanto.
    Diz o ditado que “os opostos se atraem”: amor à verdade e mistério. Não é essa a minha filosofia de convivência; deixo de lado os ‘estranhos’ e procuro plantar vida com os que compartilham comigo dos mesmos sonhos e das mesmas visões de mundo.

  2. nanda disse:

    e quando se trata de um “estranho-familiar”, o unheimlich de Freud?
    algo desconhecido mas que parece já ter sido visto alguma vez, como uma lembrança esquecida, ou uma falta de algo que nao se conhece.
    de alguma forma une o estranho (pt) com o extraño (es), né?

    • gilvas disse:

      desconhecia o conceito freudiano que enuncias. faço parte da população humana que torce o nariz para as teorias do barbudo. entretanto, como eu conversava, enquanto escrevia este texto, com a nossa palmípede amiga, pode existir uma tendência no ser humano a associar pedaços de experiências antigas como uma forma de descrever um elemento novo de experiência. esta criatura de frankenstein poderia gerar um sentimento estranho, uma inversão causal, assim ó: a visão de alguém interessante nos remete a uma sensação de deliciamento, uma espécie de conforto prévio, bem o tipo de sentimento que nos lança a luta para conquistar este alguém interessante. este alguém é um estranho, então atiça nossa curiosidade, mas tem, por baixo, um chamado à nostalgia da alegria e do prazer que nos foi proporcionado por outros alguéns antes deste. os vetores se somam: a curiosidade puxa, a nostalgia afaga. assim como acordes menores em uma peça de yann tiersen ou olafur arnalds.

      • nanda disse:

        ou como comida de mae. mesmo que seja a mae dos outros.
        (agora eu fui poética!)

  3. Milene disse:

    às vezes é difícil encontrar palavras adequadas para uma tradução, o sentido sempre acaba tendo uma variação, e eu ainda falei sobre isso ontem…

    A reflexão que levantaste sobre mistério e estranheza é bem interessante mesmo num dia de desânimo e pouca inspiração. Acho que o mistério, algumas vezes, torna o outro mais interessante, porém menos palpável. Outras vezes, como falaste, surpreende o fato de alguém guardar um mistério mesmo depois de tanto tempo… nem sei porque surpreende, estamos sempre criando novos significados e teorias sem sentido, óbvio que não vamos sair por aí emitindo estas extravagâncias. Temos segredos que escondemos até de nós mesmos. Um dia ou outro a ficha cai e nós escolhemos se passamos ela adiante ou deixamos ela ali caída e esquecida em algum lugar menos incômodo.

    Gostei bastante do conto…os mistérios não estavam no quarto, ahhhhh, mas ela tinha sim seus segredos.

    • gilvas disse:

      uma idéia, que ainda não consegui desenvolver, é a do outro integral. explico: quando enxergamos o outro pela primeira vez, ele é um todo, uma unidade que aparece diante de nós. depois de algum tempo e de algum conhecimento, ele é destrinchado por nós, e seus pedaços endereçados a outras pessoas ou circunstâncias.

      este conto do wilde não é ainda meu predileto dele. este privilégio fica para o crime de lorde arthur saville, que eu leio e releio, sempre abismado com sua concisão e surpresa. recomendo.

      não tens atualizado teu blogue?

      • Milene disse:

        Olha, a idéia do outro, inicialmente, integral é bem intrigante…pra alguns (mais conservadores) até um pouco chocante. Tem gente que prefere não ver nem esmiuçar, tentam viver com aquele tipo ideal somente. E criar ilusões de posse.
        Dá pra desenvolver essa tua idéia, hêin?!

        hum, vou procurar este pra ler. Fora aquelas frases famosas, não conheço a obra de Oscar Wilde.

        Sou preguiçosa com o blog. Prefiro ler o dos outros, rsrs. Vários assuntos sobre os quais eu queria escrever, mas não paro pra fazer. Trabalho o dia escrevendo, faculdade de história exige muuita leitura e escrita. Vou deixando o blog pra trás. O que não abandono é o meu caderno. Ali tenho muitos textos, mas acho que não são interessantes pra outras pessoas lerem…nem inteligível.

        Abraço!

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