Gone To The Movies

Na semana que passou, tive as manhas de queimar meu tocador de mp3. Ele ficava pendurado no Baratoso, uma gambiarra nervosa. Agora que ele se foi, e eu não tive tempo de velá-lo ou substituí-lo, acabei resgatando alguns disquinhos prateados na minha cedeteca.

Puxei o disco de estreia do Geneva, o segundo do Belle & Sebastian, que eu ganhei de uma namorada, e o segundo disco do Semisonic.

Semisonic nunca foi mais do que uma bandinha. Ela veio junto com outras bandas menores dos anos noventa, como New Radicals e Sixpence None The Richer. As pessoas, mesmo as mais rabugentas, devem lembrar do hit Secret Smile. Eu, pelo menos, me esbaldo no clichê: sempre tenho um sorriso pronto para quando ela toca no lugar onde estou.

Neste segundo disco havia outro hit de FM, Closing Time, que tocou até enjoar no final dos anos noventa. Entretanto, é de uma canção singela e discreta que eu quero falar, uma canção que fecha este álbum que foi o ápice da realização artística do Semisonic.

Lembro da primeira vez em que a ouvi, anos e anos atrás. O disco já passou todo, e os ânimos vão baixando como as portas de enrolar que são visíveis na primeira faixa. O que é quase irônico.

A batida no violão é limpa e direta, um riff acústico e emocionante. Dan Wilson começa a cantar de uma forma tão suave que dá vontade de convidá-lo para conversar em algum boteco de esquina em Nova Iorque.

Gone To The Movies é uma canção de despedida de duas formas. Primeiro, ela funciona como uma despedida do disco para seu ouvinte. Funciona muito bem, por sinal. Segundo, ela é uma canção de despedida entre namorados. Provavelmente a melhor que já ouvi neste quesito.

Suspeito que o que a faz tão especial seja o ângulo de onde o casal é visto. Canções de despedidas geralmente são hinos a corações quebrados, cantadas em primeira pessoa pela parte do casal que acha que está sofrendo mais. Dezenas de artistas ganharam notoriedade por expor seus sentimentos desta forma, e agora este tipo de canção me provoca bocejos.

Gone To The Movies não. Wilson olha para o garoto, que está dentro de seu “rental kingdom“. O menino fica ali parado. O tempo se move ao seu redor. O tempo muda de chuva para neve. O disco termina. Wilson narra tudo com um grau de comoção que não ocorre mais àquele rapaz. Sua voz modula a letra de forma comovente mesmo quando ele descreve o distanciamento do momento que ocorre ao redor do garoto.

Dan Wilson cresceu com uma generosa dose de comédias românticas, é o que parece. Este disco, especialmente, não parece feito de canções, mas sim de fotogramas de pedaços distintos de filmes distintos. No caso da canção que fecha o álbum, a garota é filtrada pelos gestos do garoto. Ela está longe, e o Pontiac enferrujado que ela dirige é tanto uma metáfora quanto um sublinhado.

O Semisonic sabe que é uma banda de segunda linha, e mostra isto pela camaradagem com os amigos. Qualquer astro da música pop citaria bandas consagradas e atemporais, mas o Semisonic escolhe homenagear os contemporâneos Wallflowers, de Jakob Dylan, filho de peixe que brilhou apenas por duas estações naqueles anos estranhos depois da morte de Kurt Cobain.

O que faz Gone To The Movies tão comovente é justamente um sentimento que não existe mais. Toda a cidade, os prédios, a estrada, os carros velhos, o cinema, o apartamento, tudo desenha o espaço de um amor que não existe mais. Não se trata de um sentimento que não é correspondido ou de uma rejeição repentina, mas de algo que inevitavelmente escapa pelos dedos.

A dor que percebemos na canção é toda a dor que o garoto deveria sentir. Pelo tempo que dura esta canção, o Semisonic deixa ser uma bandinha qualquer, e passa a ser perfeito e único.

***

Enquanto procurava imagens para este texto, achei esta aqui, bem legal. Dá uma camiseta bem legal.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Gone To The Movies

  1. Kellen disse:

    “she’s gone to the movies now and she don’t need your help”.
    sei lá porque lembrou-me “for no one”, dos beatles.

    • gilvas disse:

      provavelmente porque (a) os beatles influenciaram todo mundo que veio depois e (b) porque o semisonic é uma banda muito derivativa.

  2. mafra disse:

    linda canção, seu gilvan.
    tive que me esforçar um pouquinho no inglês, mas tirando algum falso cognato ou preguiça de ir atrás de aumentar meu vocabulário na língua, achei muito boa a letra… arranjo simples, direto, valorizando a melodia – aliás, belíssima (e muito bem interpretada). seu texto, para variar, além de ótimo, lança luz sobre um trabalho que eu, confesso, desconhecia – thanks.
    (onde essas canções foram hit? na mtv?)

    • gilvas disse:

      secret smile foi hit forte na mtv e na inglaterra, e tocava nas fms jovens daqui. quando toco esta na viola, sempre tem alguém para cantar junto, pelo menos o refrão. closing time tocou muito em fm aqui em floripa, encheu o saco de tanto tocar. gone to the movies, entretanto, foi um sucesso apenas no hit parade do meu quarto.

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