José Padilha: Tropa de Elite 2

A continuação de Tropa de Elite deve ser o filme mais tenso que vi em anos. Uma pequena fatia disso tem relação com o fato de eu ter visto a película em uma sessão pouco densa mas atribulada pela presença de algumas criaturas incivilizadas. Suspeito que aquelas pessoas tenham ido ao cinema para continuar o papo que estavam tendo na praça de alimentação do xópis Floripa. Depois de uma ou outra interpelação, eles passaram a falar alto apenas durante as cenas de tiroteio; é, eles aprendem. Aos poucos.

José Padilha tinha uma expectativa monstruosa para carregar em suas costas. O êxito monstruoso do primeiro Tropa dividiu as pessoas em duas facções, ambas hostis à idéia de um segundo acerto. De um lado, as pessoas que amaram o primeiro filme, mesmo que pelas razões erradas, e que não esperavam mais do que um orgasmo de sentimentos alckminianos. De outro, os críticos que apontavam acusadoramente cada simplificação que Padilha havia sido obrigado a colocar em seu filme de ação que alguns cismavam em ver como tratado sociológico.

Cagão. Padilha é um cagão. Do tipo sortudo. O que é maldade dizer. Padilha é competente. Competente como Christopher Nolan, que acertou uma segunda vez com o morcegão, tradicional campeão em adaptações cinematográficas equivocadas. Como Nolan, Padilha optou por reforçar as estruturas que sustentam o filme, acrescentando personagens na medida em que as vigas agüentassem, evitando o exagero picaresco que as continuações “mais, maior” precognizam sob outras direções por aí.

O segundo Tropa consegue ser mais tenso do que o primeiro. Talvez seja a proximidade dos personagens, das locações, das situações, talvez este conjunto de fatores torne os brasileiros mais susceptíveis à tensão produzida pelo longa de Padilha. Porém, há técnica por baixo dos panos. A trilha sonora pontua cada cena com uma raiva contida, as tomadas dos rostos estão sempre em uma proximidade desconfortável, seja nos mocinhos, seja nos bandidos.

Os itens-chave do primeiro longa são retomados, as ferragens são parecidas, ficando de fora apenas as passagens folclóricas do treinamento, que são parte essencial do sucesso de Tropa. No segundo, os bastidores substituem o nojinho do 02. Com folga. É um caminho com menos tiroteio, mas que amarra o filme com um laço sociológico atraente.

Os personagens dos primeiros são aprofundados. Wagner Moura faz um Coronel Nascimento verossímil demais, ele tem três metros de altura em uma cena, e se desmancha em miasmas logo depois, atingido pela patada do monstro que pensa poder combater. É o sistema, como ele diz, é uma massa molenga que toma conta de todos os espaços. Uma horda corrupta que toma o que Nascimento pensa ser uma virtude, e a direciona para o proveito próprio, numa distorção sagaz.

Nascimento tem três côcos. Cenas como a do tiroteio que inicia e finaliza o filme, como a do atentado ao filho, e nem vou falar do espancamento do deputado, estas cenas ficam marcadas pelo que trazem catarse ao brasileiro impotente em sua cadeira, alimentado por sua paquidérmica dose de tranqüilizante de Faustão e novelas e futebol. Nascimento é um herói, o tipo de sujeito que salta de um carro atirando porque foi feito para aquilo.

Matias consegue ser mais ingênuo do que no primeiro filme. A sua construção é um trunfo que vai orgulhar Padilha até o final de seus dias. É simplesmente genial a sua simbiose com Nascimento. Um percebe no outro, numa simetria imrpovável e surpreendente, a semente da besteira que cada um fez, está fazendo e irá fazer, tudo isso encharcado de uma intenção firme e adequada. A sutileza dos erros de cada um se coloca ombro a ombro com muito filme cult de idioma francês.

O ápice do risco que Padilha corre é o ativista de direitos humanos. Sua relação com Nascimento, seus atos, tudo o coloca perto de uma fronteira onde tudo poderia descambar. Considero a cena da abertura da CPI o ponto em que o bolo chega perto de desmanchar. A tabelinha que Nascimento e Fraga fazem é frágil, de uma camaradagem ensaiada que põe em perigo todo o bom trabalho de Padilha. Mas passa. Acaba funcionando.

Ouvi dizer muita coisa. Que Tropa poderia dar um reforço à campanha de Serra no segundo turno. Improvável. A campanha de Serra foi tão mal articulada que nem a mão divina poderia ajudar nosso nosferatu tupiniquim. Mesmo com a facção reacionária se esbaldando com as simplificações de Nascimento e não entendendo que o buraco não é de bala, e é mais embaixo. Ouvi também que a produtora de Spielberg estaria levando o filme para os EUA, onde eu acho que não funcionará. Entender Tropa de Elite é para quem conhece a corrupção que serve de mote para a película. Cada país tem seus mecanismos de corrupção, e os nossos têm muito a ver com nossa gênese. Por outro lado, Tropa merece. É um filme de atributos notáveis, merece reconhecimento lá fora. Mesmo que pelas razões erradas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para José Padilha: Tropa de Elite 2

  1. nanda disse:

    puxa, eu nao vi o filme ainda, entao nao me sinto muito a vontade de comentar sobre ele. mas gostei do texto (bastante) e queria dar meu pitaco sobre a ideia de levar o filme pros EUA: corrupcao sem escandalo sexual nao faz sucesso naquele país.
    #ficaadica

  2. Alexandre disse:

    Oi Gilvan!
    Parabéns pelo blog! Principalmente pelos comentários políticos (e Fenaostra e tals).
    Vou acompanhar.
    Gostei bastante de encontrar vcs no Blues ontem.
    Abraço,
    Alexandre

  3. Pingback: Tweets that mention Joel Padilha: Tropa de Elite 2 « sinestesia -- Topsy.com

  4. André HP disse:

    É a melhor resenha que já li, sobre o filme. Assisti logo que lançaram e gostei do viés mais libertino, focado na criminologia alternativa e presença das drogas na classe média (quando o filho do nascimento é pego com maconha) – os demais temas considero banais, milícias e outras organizações que funcionam penetrando no poder político funcionam há milênios, só trocando de forma. Gostei de se inspirarem num rapaz do psol – partido com os senadores e deputados mais premiados, por mais que não concordo com mais da metade das propostas dos socialistas.

    Procurei ler tudo que poderia sobre o Tropa, para ver se avanço uma reflexão com algum teor filosófico, no sentido de pensar a possibilidade das massas aderirem a criminologia alternativa – e não seguirem datena e outros populistas do noticiário sensacionalista das cidades.

    Hoje, o cinema tem mais a capacidade da crítica que conteúdos produzidos na tv, por exemplo. A internet vem tomando esta natureza, aos poucos. Você é um exemplo.

    Abraço!

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