Fito Floripa 2010

Consegui destacar dois dias, deste feriadão que passou, para ir ao Fito, o Festival Internacional de Teatro de Objetos. O evento foi fortemente divulgado e teve uma boa recepção. Fui no sábado e na segunda-feira, e conseguir ingressos era fruto de uma persistência resignada. O lado bom das filas monstruosas e das correrias loucas para conseguir cumprir a agenda foi conhecer diversas pessoas, ali unidas por esta estranha irmandade dos seres que se encontram em uma “robada”.

A fila dos ingressos podia durar mais de meia hora. Depois disso, vinha a fila para entrar nas salas, que durava algo na mesma ordem de grandeza. Durante alguns momentos de introspecção enfileirada, pensei nas estranhas proporções em que o ser humano ministra a si mesmo prazer e dor. Para uma hora de fila eram vinte minutos de espetáculos de excelente nível. Se formos traçar analogias com, digamos, sexo, o Fito tinha uma razão muito boa entre gozo e lamentação. Algumas mulheres podem discordar, eu sei.

O Sesi, organizador do festival, acertou em diversos aspectos, como a escolha das atrações, mas deu bola fora no quesito logística. Assistir a todas as peças e performances, mesmo indo a todos os dias, era virtualmente impossível. Ainda que isto deixe um gosto bom de quero-mais, não sei se era bem esta sensação que a organização queria.

Outro ponto curioso era o Sesi insistindo, nas aberturas de espetáculo, em puxar a brasa para a sua sardinha. Segundo a voz do narrador da abertura padronizada, ali estava uma forma de ver “objetos produzidos pela indústria interpretando outros papéis”. Apesar de algumas peças, como Toc Toque, trazerem este mote do objeto industrializado assumindo outras conotações, o que eu mais vi nos palcos foram objetos artesanais especialmente criados para aquelas apresentações, ou objetos industrializados transformados em versões de universos paralelos. Nos corredores as coisas podiam ser diferentes, muito plástico e metal em formas conhecidas, cotidianas. Havia um descompasso de intenções.

Assisti a quatro peças excelentes: Volta ao Mundo, Toc Toque, 20 Minutos Sob o Mar e Pequenos Suicídios. A primeira retoma o périplo aloprado de Phileas Fog em torno do planeta pela imaginação de Julio Verne, e o traz para o ponto de vista bem peculiar de seu criado. A segunda retoma as lides da música industrial dentro de um cenário digno de Ratatouille. A francesa da terceira peça não poupou seus espectadores de um humor negro recheado de quase deglutições de pequenos bonecos. A quarta chamou minha atenção pelo título, tão bom que casaria perfeitamente com a capa de um livro do Kundera, e não me decepcionou com sua inspirada receita de surrealismo caseiro com sutis facetas de Borges.

O único show musical, se é que dá para reduzir Tom Zé a isto, foi um equívoco dentro do contexto do evento. Chamou uma platéia em boa parte alheia às peças e às performances, e que lotou exageradamente a estrutura. Esta platéia chegou cedo, fazendo um barulho que atrapalhava as salas dos palcos.

Com o show em andamento, nota-se uma cruel ironia que se abate sobre o artista Tom Zé. O homem é um gênio, uma pessoa inteligente, mas que teve o azar de assim ser rotulada por uma grossa fatia da inteligentsia tupiniquim, inclusive pela mídia cultural. O resultado é que há muita gente indo ao show do Tom Zé para ganhar carimbo de instruído, de culto, de sabido. Este povo, minha gente, faz um papelão no show do homem: ri fora de hora, bate palmas antes do Tom Zé realmente expor seu raciocínio, dança feliz a canção que fala dos alemães peludos que estupram as meninas do Nordeste com o consentimento dos pais destas últimas. Vergonha alheia bombando, e constrangimento pelo homem.

O festival terminou com mais acertos do que erros, somando aos primeiros as boas performances do grupo XPTO, tanto nas salinhas minúsculas quanto na bela coreografia dos sacos plásticos. Rolou arrependimento de minha parte, é claro, por não ter aproveitado tudo o que eu poderia. Paciência, aguardo ansioso pela próxima edição, que, aposto, será ainda melhor.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Teatro e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

8 respostas para Fito Floripa 2010

  1. malcon bauer disse:

    Tsc, tsc…
    A pessoa não gosta do Drácula do Copolla, mas gosta de chaleiras que falam…

    Aliás, meu próximo projeto é montar “A casa de bernarda alba” com aqueles escovões de limpar privada (novos, claro…).

    • gilvas disse:

      tsc para este pessoal que não assiste e não gosta. eu, pelo menos, não vi nenhuma chaleira falante.

      • malcon bauer disse:

        Devo dizer que adoro mesmo chaleiras falantes.
        Na verdade, não assisti nada do festival porque estava viajando…

        Aliás, pra mim a mad. Samovare de “A Bela e a Fera” é um dos melhores objetos inanimados animados da história da animação.

  2. Pingback: Tweets that mention Fito Floripa 2010 « sinestesia -- Topsy.com

  3. TURNES disse:

    li sim, não comentei pois sou muito tímido, sabes né…

  4. Humberto disse:

    eu vi um xpto aqui faz tipo mil anos e foi incrível. 🙂

  5. TURNES disse:

    adooooooro chaleiras que falam.

    • gilvas disse:

      esta é o tal sarcasmo turnesiano de que tanto ouvi falar? aliás, tu leste minha resenha da tua última peça, seu mala?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s