Elogio à pipoca Bilu

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Um pacote de pipoca Bilu, contendo cem gramas, custa pouco mais de um real, segundo dados extraídos do site do supermercado Angeloni. Muito pouco por um singelo pacote onde se observa tamanho potencial de diversão.

Tentei buscar no meu remoto passado uma data aproximada para meu primeiro contato com a pipoca Bilu, mas falhei em alcançar exatidão superior a dez anos. Conheci a Bilu entre meus cinco e quinze anos. Pode parecer uma bosta de estimativa, mas já me permite precisar que conheço esta iguaria há mais de vinte anos.

O pacote de pipoca Bilu, à primeira vista, é um exemplar precioso de arte näif sobre tela de plástico cor-de-rosa semi-transparente, e uma memorabilia vívida de botecos de madeiras em estradas de terra, onde esta espécie convivia com sorvetes secos e outras peculiaridades da infância de trintões e quarentões.

Desde aquelas priscas eras, meu procedimento, ao devorar um pacote de pipoca Bilu, sempre foi o mesmo. Observa-se aí mais uma virtude do produto: um desenho que alia a peculiaridade da intenção com uma amigabilidade de interface, que logo é percebida pelo consumidor. É um amigo que rapidamente nos conquista, mas que não perde seu apelo após os anos.

O charme inegável da Bilu está em uma certa aleatoridade dos grãos que formam seu conteúdo. Esta faceta remete o consumidor a eras pré-industriais, onde a tosquice da produção popularesca permitia que nos deliciássemos com suspense e surpresa a cada bocado.

Os primeiros grãos, no topo do pacote, geralmente são insossos, e prestam-se à gula imediatista do vivente. Após estas vítimas iniciais, começa a emoção. Grãos ainda mais insossos. Grãos meio secos, mais escuros. Tudo bem até aí, mas logo você pode se deparar com uma delícia que se faz notável apenas por vir logo após uma seqüência de grãos sem-graça: o grão doce!

Devem existir, considerando uma distribuição gaussiana dentro do pacote, cerca de três pipocas realmente doces em um pacote de cem gramas. Não faço a menor idéia de quantos grãos existem em um pacote de cem gramas, mas os três grãos doces ficam marcados na memória de qualquer adicto deste hábito suburbano. É algo inenarrável e inesquecível, um pequeno vislumbre de um evento de iluminação orientalesco.

Colocado desta forma, parece-se com uma experiência de paciência: “como algumas pipocas chatas, e ganho algumas doces”, certo? Errado. A paciência é algo que não ocorre à classe média dos anos 10, e passamos a devorar loucamente as pipocas insossas em busca da realização efêmera da glicose sobre milho assado. Nesta corrida aloprada, há, entretanto, uma dose considerável de suspense: há pipocas duras perdidas.

A pipoca Bilu sofre um processo diferente daquele que se aplica à pipoca vulgar doméstica, seja ela de panela, seja ela uma daquelas monstruosidades fedidas de microondas que as pessoas cismam em classificar como “com manteiga”. Nossa amiga de pacote rosa é assada a partir de um milho distinto daquele da pipoca que se estoura. Volta e meia, então, arrisca-se a morder afoitamente um teco de milho malvado e duro, do tipo que vai dar a pressão de misericórdia naquela obturação de amálgama que já estava em vias de se aposentar.

Após toda esta gama de emoções e depois de todo o empanzinamento decorrente da ingestão de um produto com nutrientes irrelevantes, há ainda mais uma virtude a se elogiar na nababesca pipoca Bilu: o pacote vazio serve para ser estourado junto à orelha do coleguinha CDF, criando uma nuvem de partículas finíssimas, que flutuam por um átimo de tempo, para em seguida serem atraídas pela típica pele sebosa de moleque de colégio. Assim, além do susto, há aquele resto de açúcar por dentro do pacote, que se lança ao ar, grudando no rosto da vítima, garantindo que a pele de ficará grudenta até o final do dia. Ainda mais no calor senegalesco que grassava nos anos de minha infância.

É realmente injusto que a pipoca Bilu não tenha seu lugar de honra no panteão da cultura pop, e este texto é minha contribuição para mudar isso.

***
Outras iguarias incompreendidas: Charge, Tablito, e um estranho à lista, o Casadinho.

***

Aliás, se encontrarem o alienígena Bilu por aí, mandem-no à merda.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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12 respostas para Elogio à pipoca Bilu

  1. Delicioso texto! Muito condizente e divertido quanto as imortais Pipocas Bilu (aliás, achei-o aqui pq estoi atracada a um pacotão cor-de-rosa e já achei algumas bem docinhas rsrsrsrs)

    • gilvas disse:

      o escritor agradece o elogio, e confessa que estava atracado, ainda ontem, com um pacote de pipoca bilu, que devorou quase completo, sem nenhuma consideração pelas outras pessoas presentes.

  2. André HP disse:

    Nos moldes de Roterdã. hehehe…

    Abraço.

  3. marcelo de almeida disse:

    Puta merda tem aquela balinha chamada “BANDA” açucarada a beça e de todas as cores !!

  4. marcelo de almeida disse:

    Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, quando fala-ras do chup-chup de “chocolate” kichute , Conga , aquele tenis que o silvio santos vendia ? me esqueci ……” MONTREAL”ERA LOUCO PARA TER UM MONTREAL “SEM FALAR NO BAMBA AH!!!!!!!!! O Bamba !!

  5. milene disse:

    hahahahahaha, muito bom! Adoooro pipoca Bilu!

  6. TURNES disse:

    cara, eu odeio pipoca bilu, odeio.

  7. Pingback: Tweets that mention Elogio à pipoca Bilu « sinestesia -- Topsy.com

  8. Christian disse:

    Compreendo seu pensamento.

  9. Jux disse:

    ahhhh as pipocas xexelentas de outrora 😀

  10. Bossoni disse:

    A proxima tem que ser a Ode a 7Belo ou Cancao da Bala Soft. Boa, Gilvas. Sorvete seco com aquele balao de aniversario no meio. Criancada hoje criada a Cornetto Peppermint.

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