O Novo-Carnívoro

jessica simpson batalha pela manutenção do mito da loira burra

Dia desses eu estava exercitando o salutar hábito de consumir bobagem no kibeloko, onde se encontra um abundante suprimento de abobrinhas. O Antônio Tabet estava comentando o lançamento de uma linha de cortes bovinos com a marca do Corinthians. Como pode ser lido no endereço em questão, há duas piadas envolvendo o jogador Ronaldo: uma trabalha sua obesidade, e a segunda ataca seu flagrante com transexuais.

Ri, claro, mas o que me chamou a atenção foi a linha “Tá. E desde quando corintiano come carne?”. Ela me remeteu a Canoinhas, metade dos anos oitenta. A minha família era de classe média, e havia carne na mesa todo dia. Isto era um sintoma de que éramos uma família remediada, ainda mais porque a carne em questão era sempre de primeira.

Corta para 2010. Os miseráveis de Monsieur Prates dirigem carros pelas estradas e causam mortes. Quando chegam em casa, estas pessoas iletradas abrem a geladeira e, caramba, não é que tem carne lá dentro? “Chega de feijão aguado, chegou a nossa vez, podemos comer carne também!” A bancada ruralista vai ao delírio, e começa a reforçar o lobby para desmatar um tanto mais o já combalido cerrado, liga para a Monsanto, encomenda sacas e sacas de sementes cibernéticas com chaves secretas que se ligam a inseticidas e herbicidas ciborgues de última geração. O agronegócio está bombando, vamos confinar os boizinhos, moê-los em máquinas delirantes, empacotá-los em caixinhas e vendê-los com desenhos animados de boizinhos felizes em uma multinacional de sanduíches em caixinhas de papel colorido.

Pára tudo! Não era para ter passado uma década e meia? Será que não aprendemos nada? Parece que não. A ética daquela década, e de outras que a antecederam, prosseguirá por anos a fio, mesmo que estudos mostrem claramente que a pecuária é responsável por uma taxa, da tal emissão de dióxido de carbono, superior à de todos os veículos automotores do planeta. Gente teimosa, meu deus.

O consumo de carne, em 2010, ainda é um sinal de status para o novo-rico. Existem outros sinais, claro, até mais aparentes, mas a carne é um ponto crucial, pois se refere a alimentação, a base de um plano que leva, teoricamente, à saúde. O restante do pacote do novo-rico pode até ser questionado, mas a alimentação é o que vai levar sua prole a competir por vagas em vestibulares, é a proteína do boizinho que vai turbinar a cachola do filhote, assim como o leite da vaquinha. O futuro dos comedores de carne e bebedores de leite, dizem por aí, é chafurdar em artérias entupidas e panças entupidas, mas isto não vem ao caso no momento.

Ao novo-rico se junta o revoltadinho sem causa, que utiliza a carne como um símbolo de rebeldia, juntinho do cigarro e das noitadas seguidas de álcool e das declarações polêmicas baratas. Aqui também há este fenômeno de identificação com um consumo prejudicial a si e ao mundo ao redor, tudo para garantir uma personalidade distinta daquela dos que são bundões, os alinhados com um mundo adulto a ser negado.

Fico feliz que o corintiano enfim tenha seu lugar na classe média, mas me parece que ele chega quando a festa do sangue já devia estar acabando. A banda dos ruralistas, entretanto, continua tocando, é um baile lindo de ver para quem está chegando. Pena, para todos nós, é que o salão está caindo, e poucos parecem notar.

***

Em tempo: já notou o que rico come, em filmes e naquelas mesas enormes que te permitem ficar longe da esposa chata, quando está jantando? Nada de costelas ou grandes cortes bovinos, mas sim frugais porções de sopa, geralmente de legumes ou cremes de cereais. Fica a dica.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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9 respostas para O Novo-Carnívoro

  1. E logo chegará o tempo em que também teremos o “recall” bovino, como já vem acontecendo com os ianques comedores compulsivos de hamburguer…

  2. Mario Tessari disse:

    Gilvas, um vizinho de sítio come um boi por mês. Não sozinho, é claro. Ele a família. Outros comem mais. Assim, morrem muitos bois e vacas nos atoleiros de lama, ao lado das casas deles. Ah! Os urubus comem tudo o que descartam.
    Nossos vizinhos (exceto os urubus) estão preocupados que nós encontramos dificuldade para consumir 800 gr de carne por mês.
    Mario

  3. TURNES disse:

    Lembro que quando eu era pequenino, do tamanho de um botão, meus pais, da classe operária, tinham certa fixação com o lance da carne. Em algumas fases difíceis, tempos de inflação e tal, ela sumia da mesa e seu sumiço vinha acompanhado de certa sensação de impotência, e até de vergonha, como se bem sustentar o filharedo fosse sinônimo de carne na mesa, ou algo assim…interessante tentar entender de onde vem isso…talvez de épocas remotas nas quais a quantidade de bois que alguém possuia atestava sua prosperidade…mas penso que a persistência dessa associação hoje, é claro anacrônica, mas pode ser uma espécie de recalque e compensação por essa sensação passada, esse perigo do fracasso que era a falta do bife. sei lá..

  4. milene disse:

    Muito bom o texto!

    Ainda faço um estudo sobre como a propaganda da indústria da carne e derivados atinge o imaginário coletivo…

  5. Pingback: Tweets that mention O Novo-Carnívoro « sinestesia -- Topsy.com

  6. Humberto disse:

    delirei com esse texto, gilvan!!! :-DDD

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