Namorada de Aluguel

No meu páreo particular de odores bucólicos, destaco dois. Sem ordem de preferência. Um deles: aquele cheiro que surge com as primeiras gotas da chuva, quando o chão seco é molhado pela primeira vez depois de horas, dias ou mesmo semanas. Outro: aquele que exala de um gramado recém-aparado.

Para ficar melhor, apenas se calha de chover logo após a grama ter sido cortada. Aí é coisa para correr na janela, com alguns biscoitos e ficar pensando em coisas boas.

A vida é boa, embora o Sol esteja inclemente hoje.

Meus pais me ensinaram, desde cedo, que trabalhar pode ser prazeroso. Foi assim que podar grama entrou em meu rol de diversões. Esta noção influenciou fortemente minhas predileções estéticas, inclusive. Como? A maior parte das pessoas que conheço responderiam à pergunta “Qual teu filme predileto de Sessão da Tarde?” com um sonoro e óbvio “Curtindo a Vida Adoidado”. Eu não. Meu filme predileto da Sessão da Tarde é “Namorada de Aluguel”, ou “Can’t Buy Me Love” no título original.

Gosto tanto deste filme que eu não o veria de novo. Medo de me decepcionar, como aconteceu com Feitiço de Áquila ou Highlander. Ninguém merece o Christopher Lambert brandindo uma espada e calçando Le Cheval de língua de fora.

A tradução do título, apesar de tendenciosa e pouco literal, mantém o conceito e expande a sonoridade. O trocadilho com a canção dos Beatles, de qualquer forma, não poderia ser mantido numa tradução. É um título bem traduzido, uma raridade, palmas para eles.

Namorada de Aluguel, distintamente de Ferris Bueller’s Day Off, é uma comédia de erros. Em outras palavras, é menos pretensiosa. Ferris Bueller, inclusive, quando o vejo de minha atual idade, avançada e tudo mais, configura-se em um chato, um moleque mimado disputando a atenção de todos e arruinando a vida de seu amigo bundão. Ou você acha que Cameron Frye tem uma epifania de verdade ao ver a Ferrari de seu pai voar pela janela? Necas, ele deve estar se tratando até hoje!

Ronald Miller não. Miller é um rapaz tímido e pobre, tão confuso quanto um adolescente pode ser. Ele busca realização na popularidade que não possui. O filme é especialmente feliz ao desnudar os mecanismos da popularidade juvenil, da qual Miller logo se cansa. A cena final, com Cindy Mancini junto a Miller no cortador de grama, deixa clara a redenção de ambos. Provavelmente não durou nada, mas foi tão bonito.

O ponto mais clássico da comédia de erros é a cena em que Miller aprende a dançar. Ele sintoniza a tevê em um programa de dança de salão, mas tem de sair da sala, por algum motivo. Sua irmã pequena passa pela tevê, e muda o canal para um programa sobre danças étnicas. Miller retorna, confundindo os programas, e aprendendo os passos aloprados dos nativos africanos. Ele reproduz os passos na festa do colégio, e cria um novo estilo, seguido por todos os alunos.

Entretanto, cheguei aqui para falar, novamente, de cortar grama. Eu sempre quis ter aquele cortador de grama que Miller pilotava. Na época, eu também queria que ele viesse com aquela namorada super-popular. Todavia, já na época eu desconfiava que ela não seria popular pilotando um carrinho de podar grama. Uaréva, eu nunca fui popular mesmo. Ser popular deve dar um baita trabalho, prefiro cortar grama.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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9 respostas para Namorada de Aluguel

  1. Leandro Loan disse:

    Cara, acabei de assistir o filme. Reassistir – na verdade. Já devo ter visto umas 3 vezes. Que filme bonito, até mesmo dublado…

    Abraços

  2. Loan disse:

    Lembram do Te Pego Lá Fora?

    • gilvas disse:

      constantemente. eu sempre falava alguma coisa errada que fazia com que algum valentão invocasse de me tocar o terror após soar o último sinal da manhã. se tenho saudade daqueles dias, é uma saudade tingida de veios escuros. nada que me faça pedir uma indenização, dar tiros em pessoas, ou mesmo choramingar diante de um terapeuta, apenas uma noção de que a minha educação passou por alguns momentos provavelmente bem necessários.

      • Leandro Loan disse:

        é, também passei por algo parecido…

        engraçado você colocar o choramingar diante do terapeuta na frente de dar tiros em pessoas. rs

        parece que essa situação de bullying e, sei lá o quê, é uma coisa ontológica. dá a impressão de que sempre vai existir. é genético. a cultura e a educação são coisas bastante importantes, como você lembrou.

  3. martha disse:

    a grama que virou mato que virou floresta me espera na volta pra casa. depois de cumprir este dever, verei o filme no youtube.. por partes…

  4. ju disse:

    ah sim, o ferris sempre foi um babaca! me lembro que já na primeira vez que vi o filme fiquei pensando em quão mimado ele era! e em quanto eu preferia pegar o cameron! e em quanto mesmo assim eu estava me divertindo! porque, fala sério, um clássico é um clássico, mesmo que seja sobre um bundão =)
    vou pegar a dica do mafra e assistir o namorada de novo, pra ver o mcdreamy dançando =D

  5. J disse:

    Meu filme predileto da sessão da tarde é:”Nunca te vi, sempre te amei.”

  6. mafra disse:

    caramba, acabei de descobrir que o filme está todinho no youtube, com aquela dublagem “clássica” e tudo…

    ih, acho que vou perder um tempão…

    (a primeira parte tá aqui: http://www.youtube.com/watch?v=SkBYwMa0QMY&feature=related)

  7. mafra disse:

    putaquepariu, seu gilvas, te devo duas cervejas!!!

    me lembraste algo que sempre amei, no caso, este tolo (deliciosamente tolo) filme. aliás, até pensei em comprá-lo, mas nunca o encontrei por aí, em lugar algum… pena. eu adoraria revê-lo. e talvez, assim, pudesse melhorar a coreografia da “dança do acasalamento do tamanduá africano”, que até hoje tento reproduzir sem muita precisão…

    ah, longe de mim gostar de cortar grama, mas com um carrinho daqueles, até acho que deve ser divertido, né?!?

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