Home

Falar mal de Anton Corbijn seria uma sacanagem. Ele é o cara que forjou a imagem do Depeche Mode e os levou a seu verdadeiro potencial de arena. Talvez este não seja exatamente um mérito em si, mas ele o fez com tremenda personalidade.

Implico com alguns vídeos que ele fez para o Depeche Mode. Personal Jesus é o mais explícito no quesito “não funcionou”. Há coisas interessantes, sem dúvida. Amo It’s No Good, e Barrel of a Gun é muito bom. A fase Strangelove tem seus altos e baixos, mas ele erra a mão em vários momentos. As canções de Martin Gore e a imagética do grupo permitem vôos muito interessantes em vídeo, e Corbijn foi a fagulha, mas não a plenitude do aproveitamento deste potencial.

Lembro de quando consegui a coletânea de vídeos 86-98 do Depeche Mode. Era um arquivo só. Era uma merda chegar em Home. Demorava um monte, eu tinha de correr o vídeo em alta velocidade até chegar no ponto. O sentimento era semelhante ao que eu tinha quando usava uma caneta Bic para rebobinar minha Basf 90 sem gastar a preciosa energia das pilhas do meu genérico de Walkman.

Home se passa em um motel. Considere aqui motel como aquele hotel genérico de beira de estrada. Um lugar impessoal em sua absoluta falta de padrão estético ou higiênico. Home mostra pessoas dentro deste hotel. Cada quarto mostra uma vida diferente. Pessoas diferentes, etapas diferentes destas diferentes vidas. Há a família que pula sobre a cama, eufórica. Há o casal idoso que compartilha uma caixa de bombons. Há o cafetão que aguarda a prostituta fazer seu número um em pé. Há o vendedor que grita desesperado ao telefone por uma tragédia que se desconhece. Há muito mais, claro. Você vai ver no vídeo. Todos, lá dentro, são observados por uma pessoa careca e magra. Ele olha atento, caminha pelos corredores de carpete velho. Não se sabe o que é ele. Pode ser um gárgula que salta da pedra no início do vídeo, pode ser um arcanjo entediado, pode ser a Morte vagando, pode ser um Eterno que se perdeu. Pode. Ao final do vídeo, ou na metade dele, qualquer ostra bêbada pode perceber que o motel é uma metáfora em subversão do que se conhece tradicionalmente como um lar. Trata-se de um campo neutro, uma assimetria extrema buscando passar a noção de que o lar, enfim, não é um lugar.

Steve Green dirigiu este vídeo em 1997. Foi extremamente perspicaz, percebeu a força épica da canção que Martin Gore canta. Este é meu tributo ao vídeo e à canção, e um convite para você dar uma olhada. No youtube não tem nenhum endereço para o vídeo oficial, então tu olhas aqui ou aqui.

Mais Depeche Mode? Aqui, aqui e aqui.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Home

  1. TURNES disse:

    não superei minha paixão adolescente por David Gahan.

  2. ian disse:

    Essa música deu muito papo pra gente, então, acho que seria encheção de saco eu querer continuá-lo aqui. Só digo que eu fiquei felizaço por tu teres postado algo sobre essa música triste, que rasga meu coração como uma navalha melecada de cerol. Mas que é bela. Como diria o Carlos Drummond de Andrade, sobre uma rosa que nasceu no meio do asfalto, do ocre, do seco, porém, mesmo assim, ainda é uma rosa.

    Abraço!

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