Ficção No.55

Esperou até que o ar sossegasse após os passos apressados dele ao se postar no centro do corredor. Inspirou até ter certeza de que sabia claramente a fronteira entre ela e os objetos tácteis ao redor dela. De olhos fechados. Focou até perceber-se íntegra, una. Lançou-se, enfim, ao abismo do outro.

Com os braços projetados na direção do local que ele ocupava, tateou na certeza simétrica de encontrar. Tanto o braço esquerdo dele na palma direita dela quanto a palma esquerda no braço direito dele. Seguiu até o ponto do simples toque, e desceu como se acariciasse com vontade. Nada encontrou ali.

Continuou descendo o movimento em linhas paralelas para a lateral externa dos glúteos, as coxas, a divisa tão clara e engraçada dos joelhos, as mãos cederam das laterais para as batatas das pernas para enfim não encontrar nem mesmo os pés.

Em seu silêncio suspirante fechado na escuridão das próprias pálpebras, recuou um passo, alinhou a outra perna com a primeira. Inspirou. Voltou, decidida, as mãos enlaçando os cabelos atrás da cabeça numa carga intensa de expressão, uma expansão física de carinho sem libido. Nada percebeu.

Encostando seu tórax e abdômem ao tronco que imaginava mas não sentia, deixou as mãos seguirem até as costas de um rosto que era só um rosto sem uma cabeça por trás dele. E o amou, o amou, o amou. Entre as ondas sucessivas do que sentia, parecia ouvi-lo sussurrar “eu sempre estive aqui”.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Ficção No.55

  1. mafra disse:

    por um instante tive a nitída impressão de que se tratava de um boneco…
    (um daqueles modelos de loja de roupa)

    • gilvas disse:

      ainda no assunto “entregando a idade”, lembra de uma comédia romântica meio páia, anos oitenta agonizando, chamada “manequim”? o cara se apaixona por um manequim feminino de vitrine, e ela é viva, uma coisa meio pinóquio com seios interessantes. caramba, eu já era uma pessoa doente na época…

  2. ma disse:

    parece um sonho que tive…

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