Um Adeus

Foram dez anos, um mês, uma semana e um dia. Algo assim. Impreciso. Pois não quero datas para marcar ainda mais esta passagem. Busco um exorcismo respeitoso ou uma declaração de amor que não soe hipócrita. Então, mais apropriado que eu me declare aos dias que compartilhamos. Amamos, enfim, aquilo que fomos enquanto durou, assim é a estes dias compartilhados que direciono estas palavras.

Dois namoros foram transportados em seu espaço algo restrito mas sempre estiloso. Um número diverso de casos, encontros, surpresas, descobertas, e as inevitáveis ressacas que todo envolvimento causa. O apego machuca, esteja o gancho na carne daqui ou na carne de lá. Mesma coisa.

Neil Hannon canta, em seu primeiro disco, sobre o carro do pai da namorada/caso. Ele é genial fazendo isso, transmitindo uma miríade de sensações que apenas um amor amargo e bobo poderia causar. Em um coração capaz de perceber o que acontece e que não se comova. A comoção nubla as percepções, algo como lágrimas sobre bilhetes recém-recebidos ou nunca enviados. Piegas assim.

Mas o irlandês chega mais perto do que sinto alguns álbuns depois, em Lost Property. Como ele, sou um tipo sentimental, percebo um vazio perturbador quando objetos do meu cotidiano se vão. Mesmo que não tenham sido perdidos, entenda.

Ele me levou a três shows do Los Hermanos, mas lembro de Sentimental ter sido executada, com certeza, em apenas um deles, o primeiro. Quando eu nem entendia o que Sentimental realmente significava. Ele, porém, estava lá, e já significava. Curiosamente, foi um irmão dele que me levou ao show do Los Hermanos, que eu peguei pela metade antes de ver a minha banda predileta.

Chega um momento em que as coisas ficam insustentáveis, entretanto. Alguns sinais são sutis, outros são tão diretos que você tenta esconder dos amigos. Tem um dia em que não funciona mais de jeito nenhum, você tem de seguir seu caminho, e deixá-lo.

Uma abordagem capaz de mitigar seus sentimentos tristes é pensar que tu és um Pançon que se manteve leal, seja lá o que for que Frida Kahlo estivesse querendo dizer com isto. Se é que disse, também. O fato é que, quando eu saí de dentro da loja com o outro, ele já havia sido levado. Para “a central de carros usados da concessionária” enquanto me parabeniza pela aquisição.

Mundo estúpido este em que te parabenizam por gastar dinheiro. Soa como se houvesse virtude no ato de gastar dinheiro em uma bolada. Se fosse apenas, o vendedor, eu entenderia, ele é pago para me fazer sentir bem em todo o caminho da aquisição que vai lhe permitir uma comissão e o direito de alimentar a si e à família por mais um mês. Entretanto, eu só consigo pensar que minha história, parte dela, estes dez anos, um mês, uma semana e um dia, insuflaram uma espécie de alma naqueles tantos quilos de aço, plástico, borracha, espuma e vidro. É a esta alma que eu me dirijo, apenas uma espécie de especial carinho em minhas mãos.

Fica bem, Baratoso.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Um Adeus

  1. maricota disse:

    Legal…
    E é verdade, tinha esquecido que pegamos carona de um Ka pra ir no Radiohead!

  2. kellen disse:

    Genial, Gilvas.

  3. Turnes disse:

    ah baratoso!
    fica bem.

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