Percevejo

Dois dias antes da sexta-feira de véspera de carnaval a empresa se enche de abanadores e camisinhas e cartazes. Os abanadores ficam por cima das mesas com uma camisinha colada. Montes de camisinhas ficam sobre as pias dos banheiros, aguardando os foliões mais tímidos. Os cartazes se espalham pelas paredes perto dos armários de café.

O cartaz do meu andar é de uma moça loira. A imagem dela é assimétrica, e o fotógrafo teve as manhas de capturar a axila direita dela de um jeito excessiva e desnecessariamente prescrutador. Incompetência ou pressa, eu não sei dizer. Mas o ponto é outro. É um furo, na verdade.

Quem fixou o cartaz usou percevejos metálicos, e os colocou em áreas nas quais aparecia a pele da modelo. Tirei os percevejos, e os coloquei em áreas fora do corpo da modelo. Pode-se considerar isto um típico caso de confusão entre mapa e território, conforme McLuhan precogniza, e eu aceito a acusação de bom grado.

Ficou um furo na pele da moça, que eu tentei ajeitar. Não deu muito certo, sou péssimo cirurgião plástico, mesmo quando estou operando folhas de papel plastificado. Porém, ali a intenção é que contava, fiz minha parte, tirei aquele pino de metal que invadia a representação plana daquela moça. Eu simplesmente não poderia deixá-la ali sofrendo lentamente.

<descem as cortinas>

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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