As palmeiras daqui

Um senso de surrealidade me atinge quando passo diante do Centro Integrado de Cultura. Não falo das eternas reformas do local, não me presto a polêmicas baratas e conclusões óbvias. Falo das palmeiras, não as selvagens palmeiras de Faulkner, mas das melancólicas palmeiras que foram transplantadas para as cercanias do elevado do CIC.

Esta moda começou, pelo que lembro, menos de dez anos atrás. Lembro ainda de passar diante de um prédio novo, chique, na Beira-Mar, e lá estavam duas, ou mais, palmeiras transplantadas. Os novos-ricos querem tudo, e querem já. Sua savana particular deve estar pronta, é um requisito para a canetada final na compra.

A ansiedade que produz estas palmeiras desterradas é frontalmente contrária ao senso de inserção na Natureza que, esperam os incorporadores imobiliários, elas deveriam causar. São plantas que cresceram em outro lugar, Paulo Lopes talvez, ou Antônio Carlos. Elas tomaram outras chuvas, se acostumaram com outro ar, conheceram outros pássaros. Conheceram pássaros, inclusive. E um dia são arrancadas, jogadas em um equivalente do Navio Negreiro, e trazidas, a ferros, para a capital. Para servir de alento para novos-ricos em suas salas vazias com vista para a Baía Norte.

O solo compactado dos canteiros centrais e das frentes dos grandes prédios é um suplício para as raízes das palmeiras. Para começar, se fossem ali colocadas as pequenas mudas de palmeiras, dificilmente alguma alcançaria sua majestade adulta. Para os novos-ricos, entretanto, basta o fulgor imediato que os faz abrir os talões de cheques. A paisagem da janela logo é substituída por panegíricos televisivos estupidificantes, e lá ficam as palmeiras, imersas em patéticos holofotes verdes, criando uma ilusão de que o canteiro central é, no fim das contas, uma espécie de mundo de Avatar onde os gigantes azuis são substituídos por flanelinhas e viciados, todos com a compleição doentiamente esbelta dos heróis de James Cameron.

A súbita aparição das palmeiras, surgidas pela mão mágica do homem, recria, de certa forma, o Éden daquele que criou o homem à sua imagem. Ou vice-versa, para deixar a sardinha antropomórfica sempre quentinha. A planta não saiu de uma semente em um ambiente úmido para virar uma mudinha frágil para então crescer, inserida em seu ambiente e vivendo suas tragédias diárias para sobreviver e tornar-se uma bela e portentosa palmeira, ela simplesmente surge ali pelo mesmo feitiço que fez os bilhões de anos do Universo virarem seis mil na mitologia judaico-cristã.

As palmeiras do elevado do CIC são um pequeno teatro do absurdo, um micro-universo dos equívocos da administração desta cidade.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para As palmeiras daqui

  1. martha disse:

    curioso ler este texto hoje, pois depois de muito tempo, passei na beira mar e vi as palmeiras seguras por umas cordas.. elas realmente pareciam muito deslocadas e tristes.

  2. Anarcofagico disse:

    Você viajou muito nessa aí, como em todos os seus riquíssimos textos. Abraço!

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