A ironia dos extremos que se encontram

devemos desistir de tudo então?

Pouco menos de um mês atrás ocorreu aquela polêmica toda sobre a Arezzo e sua nova coleção, que continha peças feitas com peles de animais. Foi uma ocasião curiosa. Uma vez que uma grande fatia da população conectada à internet já se mostrava consciente da crueldade que é arrancar, literalmente, a pele de animais fofinhos para vestir a classe-média-alta, alguns ativistas veganos e ambientalistas acharam que seria o momento de dar o passo seguinte: lutar pela abolição do consumo de carne destes animais fofinhos e de outros menos cotados.

A iniciativa foi correta, e se encaixava de forma perfeita naquele momento. A estratégia, entretanto, não contava com a forma como a realidade cisma em ser irônica. Os ativistas falavam “ei, você se importa quando matam a raposa para tirar o couro, mas continua comendo bois e frangos. que tal pensar nisso?”, e alguns polemistas baratos, como o Forastieri, dispararam “no mundo de hoje não é possível ser vegano, a indústria colocou algum insumo de origem animal em todas as coisas que comemos, vestimos, usamos”. Ou seja, ou tudo, ou nada. O discurso dos ativistas chatos se encontrou com o dos niilistas chatos, e vice-versa.

A esta altura do texto, talvez seja interessante eu te contar que não sou vegano, nem mesmo vegetariano. Eu apenas tento fazer o melhor que posso. Evito comer derivados de animais, evito usar peças de vestuário que contenham derivados de animais, procuro consumir comida feita perto daqui, ando de bicicleta pela minha saúde e para evitar o uso do carro. Evito comida embalada, produtos que estragarão rápido, compro apenas após ter refletido profundamente. Carrego ração e água no porta-malas para alimentar guaipecas azarados na rua. Mas não sou ativista e não sou poser. Prefiro o silêncio, que me aproxima do significado das coisas, e me afasta das armadilhas da retórica nervosa dos dias atuais. Se alguém deve dizer, que o diga a atitude.

Os extremos me incomodam. O meu colega que diz “Gilvan, porque ajudar este cachorro se tem outro morrendo lá embaixo do viaduto e ninguém faz nada por ele?”. O outro, que diz “Gilvan, que diferença faz se você não come os bois? Tem milhões de pessoas comendo os bois!”. Mais um, me olha feio porque eu ainda uso meu cinto de couro, como se eu não tivesse largado todas as minhas amarras onívoros para me tornar um arcanjo purificado com meu cajado de energia cósmica sem lactose ou albumina. Desculpaí, gente, mas não dá para ser tudo o que vocês querem. Ei, vocês do outro, também não dá para se conformar, e ser este goiaba que consome exatamente o que o mundo me oferece, sem criticar, sem questionar.

Se cada um de nós simplesmente seguisse o caminho do meio, sem exageros, cuidando de si mesmo, observando, em silêncio, o que o mundo tem a nos dizer, as coisas estariam bem melhores.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para A ironia dos extremos que se encontram

  1. Karla disse:

    Adorei o texto Gilvan. Se o veganchatos soubessem que o discurso extremista só afasta quem eles querem “converter”, talvez mudassem de atitude. Eu já fui dessas, ainda bem que mudei..

  2. Concordo totalmente com seu ponto de vista e sou assim como vc. Me incomoda um pouco os dois extremos tb. Então acho que fiquei no “meio”.

  3. Loan disse:

    Sobre o veganismo, achei interessante que você criticou a forma e não o conteúdo. Sou vegetariano, quase vegano (consumo ovos caipiras 1 vez por mês – ou menos – e tenho uma mochila com um detalhe de couro, além de consumir outros produtos que nem sempre verifico se foram testados). No entanto, não fico metendo o dedo na cara dos outros e o máximo que faço é jogar algumas questões na internet, divulgar o assunto e conversar quando estão interessados.

    Ainda assim, o veganismo é possível e necessário. Diferente do niilismo.

  4. Ian disse:

    Como diz meu tio, nem tanto a Deus, nem tanto ao Diabo.

  5. marisa disse:

    simples assim.Admiro e concordo .com sua posição

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