Kenneth Branagh: Thor

Sábado frio, uma penca de amigos, pipoca gigante e uma coca-cola exagerada, tudo pronto para o que prometia ser o primeiro cinemão-pipoca de responsa em 2011. A expectativa tinha suas razões: A boa fase da Marvel no cinema, filme efetivamente filmado em 3D, elenco contendo atores de primeira-linha em alguns elementos-chave, um diretor de peso, e um micro-universo de magia que permite malabarismos épicos nas câmeras e nos efeitos. E eu não saí da sessão decepcionado.

O filme mostra um arco de história relativamente amplo, onde se busca iluminar vários aspectos dos aesires e dos habitantes dos outros oito mundo. Como Loki é o vilão desta vez, não há como escapar dos gigantes de gelo, moradores de Jotunheim. Uma das sacadas interessantes é o foco na ponte do Arco-Íris, que, adianto aos neófitos, não é uma passarela para o desfile de fanáticos por Cher e Lady Gaga. A ponte, sempre uma metáfora nos gibis, ganha aqui um detalhamento de aparato tecnológico de tal sofisticação que se encaixaria na afirmação de Arthur Clarke, citada durante o filme, de que a tecnologia muito avançada não se distinguiria da magia.

Heimdall, em suma, é muito importante. Neste ponto, já fica clara a opção do filme em reduzir o número de personagens em tela para conseguir contar toda a história proposta. Assim, para desespero dos nerds de plantão, nada de Balder, de Karnilla, de Hela, necas de Valquírias, e, tristeza absoluta da horda onanista, nada de Encantor.

Os gigantes de gelo são tinhosos. Fodões. Certo, eles são sacos de pancadas de Thor e títeres das manobras de Loki, mas são uns monstrengos nada interessantes para se encontrar em qualquer lugar. As cenas de luta são boas, e olha que estamos vendo um filme de Kenneth Branagh.

O inglês, inclusive, entrega o que se esperava dele. As intrigas de Loki são bem desenhadas, e suas distorções são sempre engenhosos. O ator encarregado do papel funciona perfeitamente. Não dá para realmente culpar Loki, ele sempre vai te olhar e pedir para avaliar as circunstâncias. Coitado do cara!

As caracterizações para os parceiros de Thor em suas aventuras, na minha opinião, são perfeitas, embora tantos tenham torcido o nariz para um Frandall oriental. Lady Sif, diabos, perfeita. Nada de moça-peituda-com-braços-finos-empunhando-espada-e-dando-piruetas. Lady Sif tem braços compatíveis com a sua reputação, e é marcante em pelo menos dois momentos do filme. Primeiro, no momento em que Thor tenta convencer seus amigos a se meterem uma baita enrascada, com seu libelo feminista de timing perfeito. Segundo, no primeiro golpe poderoso contra o Destruidor, sem firulas, um salto excelente, a lança atravessando seu pescoço, os segundos de falsa segurança, a explosão em seguida.

Medo de terem descaracterizado a roupa extravagante de Thor? Nada disso! Os figurinos são exagerados, fiés aos quadrinhos, capa vermelha, os círculos no peitoral, e o Mjolnir. Nada de firulas aqui também. Mjolnir é um bloco de metal com aparência antiqüíssima, uma arma misteriosa que inspira respeito e temor naqueles diante dele.

Passado o fulgor dos elogios, vamos aos problemas. Primeiro, as gracinhas. Como se fosse uma novela das oito, Thor tem um núcleo cômico, do qual sua musa Natalie Portman faz parte. Não, não é nem de perto ridículo como o papel de Princesa Amídala naquela patuscada tripla que são os episódios 1, 2 e 3 de Stars Wars. Sei, depois de Cisne Negro, ela pode se dar alguns luxos, e tudo bem, mesmo, mas ela não precisa se arriscar tanto. As piadas até permitem um alívio cômico que, em alguns momentos, é interessante, mas dão uma quebrada chata no ritmo da história.

E alguém precisa urgentemente me explicar o que é aquele “Arrá!” que o Loki solta no quebra-pau final com seu irmão. Soa como se o vilão tivesse sido possuído temporariamente pelo espírito-de-porco do Sérgio Mallandro.

Segundo, as menções a tecnologias atuais. Totalmente desnecessárias. Ipod, Facebook, tudo isso pode ter virado fumaça na próxima semana, e Thor, em dez anos, será um filme desnecessariamente datado. Manja um show do Modern Talking em 1999? Então, isso.

Terceiro, um resmungo solto. Thor muda rapidamente demais. A guinada é brusca demais, devia até disparado o airbag. Entretanto, temos de pensar financeiramente. Thor deve ter custado uma baba, e tu não vais querer botar tudo a perder com um roteiro que não possa ser entendido por uma ostra de inteligência mediana, certo? Tipo, americanos são o melhor mercado para Hollywood, e americanos não são exatamente conhecidos por sua evolução intelectual, você concorda? E, vai, ainda é muito superior àquele negócio que dizem ser o roteiro em Avatar.

Quarto, muito monga a inserção do Gavião Arqueiro. Sem sentido. Quase boba. Agora, alguém me diz aí, o negão com quem o Thor briga, quando vai buscar, sem sucesso, seu martelo, é o Luke Cage, certo? Ah, Stan Lee aparece, muito massa.

Este ano ainda tem o Capitão América. Expectativa baixa pelo bandeiroso, confesso.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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7 respostas para Kenneth Branagh: Thor

  1. Joao Andrade disse:

    Olá Gilvan,
    Tava navegando pelo orkut e cheguei aqui.
    Achava que era só o Marcio que postava críticas de cinema. (http://www.scheibel.com.br/) não conhecia este seu lado crítico/artístico.
    Ainda não assiste ao filme, mas pelo que li Hela não faz parte. Após ler tuas críticas e as do Márcio que que vou gostar.
    []s
    João

  2. Jefferson disse:

    Sei lá! Te vira 😀

  3. Jefferson disse:

    Bechona! Deveres maritais me impedem de ir nas segundas e quartas. Vai lá no meu brogue e se cadastra como ‘seguidor’ de verdade. Estou contando assinaturas para fundar meu partido (ou uma igreja, ainda não de decidi) e isso me dá credibilidade 😀

    • gilvas disse:

      uhm, dá para entrar como seguidor do teu bolgue universal usando openID, ou preciso usar o logon do Blogger?

  4. Jefferson disse:

    Ô franguinha! Tais treinando? Voltei ontem! Não acompanhas mais o meu brogue é? Veado.

    Vamos ver se tu consegues treinar numa terça pra gente tomar uma gelada na sequência. Tenho que te devolver uns filmes.

    • gilvas disse:

      ora, cetáceo, estou treinando direto nas segundas e quartas, é menos concorrido. terças e quintas são reservadas para nadar e fazer prova na fgv. acompanho teu blogue, sua moça, está no meu reader. é que eu não me sinto muito animado a comentar aquelas zarabatanas metidas que tu fazes na oficina, hehe.

  5. Turnes disse:

    Eu curti bastante. Apesar de adorar a primeira cronologia dos quadrinhos quando Odin manda Thor para a Terra na pele de um médico aleijado e desmemoriado (frágil e fraco, castigo de verdade). Mas o filme segue perfeitamente a segunda cronologia com Thor caindo na Terra apenas sem poderes mitológicos. Exuberante a Asgard digital e a leitura da ponte do arco-íris. Barulhento sim, mas afinal trata-se de duelos de titãs. Achei as composições para os personagens perfeitas. A direção de Branagh faz a intriga na família real tomar tons shakespereanos, como era de se esperar. Tem clima, tem tom, e dualidade pomposa nos diálogos. Lóki rouba a cena bonito, excelente. A parte passada na Terra por outro lado perde eficiência dramática e o “alívio” cômico daquela amiga da Natalie é realmente sofrível, mas tudo bem. A coisa do arqueiro verde é essa bobagem de preparação pro filme dos Vingadores (medo). Como a cena pós créditos, devidamente prejudicada pela luz acesa na sala, que acabou com a belíssima sequencia digital das galáxias durante os créditos finais.

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