Três Discos

Hoje chegou aqui o disco do Bad Lieutenant. Saiu faz um bom tempo, eu sei, mas tem um filme do Nicholas Cage com este nome. Eu não vi, mas deve ser uma bosta de dimensões continentais. Nada a ver, eu sei, mas que eu posso fazer se sou uma pessoa assim irracional?

Never Cry Another Tear segue a mesma linha que o New Order vinha seguindo. Ou seja, coloca um ponto em Republic, outro em Waiting For The Sirens’ Call, desconta o desvio roqueiro-poser do Peter Hook, extrapola o número de anos, e, pronto, aí está o álbum de estréia dos caras. Meio óbvio, claro, mas eu não consigo imaginar o Bernard Sumner sendo surpreendente; ele não conseguiria dormir à noite com isto na cabeça.

O álbum se impõe como uma massa. Tu não consegues realmente ver algo que se destaque. O que pode ser bom. As canções são quase todas rápidas, melódicas. Tudo de bom gosto, os timbres, as estrofes, os refrões, tudo naquela melancolia cinzenta que apenas a caminhada contínua por ruazinhas inglesas pode proporcionar.

Não sei você, mas eu curti imediatamente.

Tem dia em que eu encaro hype. Eu não devia, mas tem vezes em que vale a pena. Encarei, então, Tulipa Ruiz. Eu já tinha encarado Tiê, que não tinha descido muito bem, mas falaram tanto da Tulipa que eu fui verificar.

De cara, salta aos olhos um leve desafino, característico da escola nova MPB indie em que a menina se encaixa. O produtor do disco, no entanto, teve as manhas de manter esta faceta da moça dentro dos limites que fazem as canções soarem mimosinhas em seu desajeito.

Efêmera, por exemplo, me dá vontade de dançar pela casa. Quem sofre é a Dharma, que acaba sendo cooptada para parceira. Do Amor é de uma fofice perfeita, devagar vai te abraçando. Tulipa Ruiz não tem nada demais, eu diria, mas soa um oásis neste deserto das cantautoras brasileiras. Deriva, como boa parte do que se faz de bom no Brasil atual, da escola circo + universidade + ritmos latinos da qual o Los Hermanos é um dos representantes máximos.

Se fosse para falar de uma música que me chamou a atenção, eu não teria dúvidas. Amei carinhosamente A Ordem das Árvores. A canção é brincalhona, fala de árvores e pássaros, então como não gostar, como não amar bobamente?

O nível de todo o resto do disco, e soa mal falar “resto”, está ali, pertinho. Tem coisa que soa meio forçadamente anos oitenta, um eco de Metrô com Paralamas do Sucesso ou Titãs, em Brocal Dourado, mas que passa legal no filtro por conta da sinceridade da menina. Às vezes parece coisa da Marina, por exemplo, mas é aquela coisa boa de ouvir, uma crônica de eventos urbanos e citações como a de Money For Nothing.

Phil Selway é um cara quietão. Sério, ninguém ouviu a voz dele. Nem em entrevista. O cara leva muito a sério este negócio de ser baterista. E é bom, cacilda, é muito bom. Dá vontade de bater no Thom Yorke quando ele entra em suas nóias eletrônicas e bota o Phil para escanteio. Phil é diferente de ogros como aquele do Roupa Nova, que cisma em usar baquetas e ainda por cima cantar. Outro que se encarna nesta bizarrice é o xará Phil Collins, que também é careca.

E tem uma carreira solo. A julgar por Familial, primeiro disco de Phil Selway, não vai rolar uma carreira. Parece um tiro único, uma válvula de alívio para um cara que já está com os filhos crescidos, e que tem uma chance de mostrar suas composições longe das primadonnas da banda-mãe.

Ele fez tudo certinho. Suas canções são a sua cara, ou seja, quietonas. Phil transita pelo folk introspectivo, sem escorregar, felizmente, para um certo revival de country com colorações esmaecidas que dominou as mentes indies uns anos atrás.

Familial não vai mudar tua vida. Tu vais escutar numas tardes quietas, de repente colocar um pouco antes de dormir, mas logo vai querer puxar aquele Nick Drake da prateleira, ou mesmo um Simon & Garfunkel, só para ter um gosto do original que Phil Selway homenageia. Eu, particularmente, acabo tendo uma baita vontade, ao terminar Familial, de ouvir Andy Yorke.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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