A Incomunicabilidade

A incomunicabilidade sempre foi um dos temas marcantes no cinema francês que considero relevante. Aos pares, aos trios, ou em outras combinações, os personagens das epopéias cotidianas francesas demonstram que as palavras, ironicamente, não servem para o que se imagina, deveriam servir. As pessoas conversam, conversam, e, dolorosamente, não conseguem transmitir o que pensam, sentem, imaginam. É uma situação que me incomoda, e que me dá parâmetros para destrinchar a realidade.

Numa esfera mais banal e óbvia, eu lembro de, alguns anos atrás, estar buscando alguns discos do Duncan Sheik, um dos meus artistas prediletos. Aqui vale um parênteses: a música dele que primeiro me pegou foi She Runs Away. Levei um tempão para aprender a toca-la no violão. Até hoje é uma de minhas canções prediletas, não me canso dela, de sua simplicidade e de suas facetas, de sua letra que tranqüiliza e conscientiza.

Bom, estava eu buscando os vídeos. Encontro. E, rapaz, que decepção.

Uma moça caminha entre lâmpadas fluorescentes. Caminha? Não. Ela desfila. Os ambientes variam. Ele aparece todo limpinho, tocando com a banda. Algumas truncagens que não escapam da cartilha do clipe noventista preguiçoso, e segue. A moça do título, ela, uhm, “foge”, “escapa”. Total contraste com a letra:

You may not see the end of it
But luckily she comes around
It isn’t what she talks about
It’s just the way she is

(chorus)

(..and she says)
Ooh darlin’ don’t you know
The darkness comes and the darkness goes
(…and she says)
Ooh babe why don’t you let it go?
Happiness ain’t never how you think it should be so

I mystified the simple life
I covered up with consciousness
I saw myself and broke it down
‘Til nothing more was left
She saw the symptoms right away
And spoke to me in poetry
“Sometimes the more you wonder why
The worse it seems to get”

(chorus)

And then you know there comes a time
You need her more than anything
You may believe yours are the wounds
That only she can heal
Then everything will turn around
And she becomes so serious
What she choose to offer you
Was all that you could have

(chorus)

Pessoas que estejam um pouco familizariadas com o funcionamento de um templo budista, elas reconhecerão alguns traços típicos de alguém que está dialogando com um mestre, ou mestra, neste caso. Pode também que “ela” seja uma metáfora da iluminação, algo que nos escapa quando tentamos aprisiona-la, algo que nos ensina de forma sinuosa e elegante que a vida deve ser vivida de forma sutil. Enfim, me parece óbvio que Sheik esteja falando de uma experiência de fundo espiritual, e não de uma mulher a ser conquistada.

Neste ponto, entra a incomunicabilidade, entre a letra de Duncan e a interpretação do diretor do vídeo. Alguém, mais rabugento do que eu, poderia dizer “ah, o diretor está usando a modelo do vídeo como uma metáfora da metáfora”, ou seja, o cara embarcou numas de psicologia reversa. É provável? Olha, talvez, mas é só puxar uma lâmina de Occam do bolso, e tu chegas rapidamente à conclusão mais simples, a de que Duncan Sheik era um iniciante, e que teve de aceitar um diretor boca-mole para dirigir seu vídeo. Por essas e outras é que eu quero mais que as gravadoras morram mesmo.

Por outro lado, eu realmente não consigo imaginar como eu faria um vídeo para esta música, assim como não teria as manhas de dar imagens para outro libelo budista de Sheik, Such Reveries. Isto, entretanto, tem a ver com minha incapacidade de imaginar as imagens adequadas, e não de me comunicar com a letra de Sheik.

Na vida real, todavia, as letras não estão escritas. Dizem certas teorias que menos de 50% da comunicação, em uma conversa, se dá por palavras. São preponderantes outros sinais, outros detalhes, a linguagem corporal, as pausas, os silêncios. É dessas entrelinhas que vivem os filmes franceses de incomunicabilidade. Diante da tela, sentimos esta agonia de ver duas pessoas se debatendo para conseguir uma comunicação. Dá vontade de entrar ali, e dizer “Fulano, será que é tão difícil entender o que esta outra pessoa está querendo dizer?”.

Fora da sala de cinema, porém, as coisas ficam bem mais complicadas. Como em A Lenda do Pianista do Mar, o mundo é um piano com teclas demais, e algumas a gente só percebe de relance, e provavelmente as mais importantes. É fácil entender a razão, o que nos remete mais uma vez à canção de Sheik: nosso ego nos encanta, nos rouba a atenção. Encantados pela sereia da própria voz, somos presa de um entorpecimento cegante. Os signos nos escapam, porquanto moradores dos detalhes. E ficamos ali, observando, nos perguntando, em meio a uma estação de trem vazia, o que foi que aconteceu. Mas pensa positivo, pelo menos não estaremos com o mala que dirigiu She Runs Away. Ou estaremos?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para A Incomunicabilidade

  1. Turnes disse:

    Sabe aquelas peças de teatro cuja sinopse contém algo como: “o espetáculo trata da incomunicabilidade do ser humano…”? Não assista.

  2. Ian disse:

    É, incomunicabilidade é um dos nomes pelos quais sou conhecido =P

  3. Loan disse:

    Faz aulas comigo $:)

    Katana de Occam.

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