A Mediocridade

Eu ia deixar meus comentários sobre o fenômeno Oração da Banda Mais Bonita da Cidade se resumirem a alguns resmungos no Twitter e no Facebook, mais algumas piadas em balcão de boteco, mas o nobre amigo Jean Mafra andou escrevendo umas minúsculas sobre o assunto, o que atingiu meu orgulho rabugento.

O Brasil teve algum sucesso ao reproduzir alguns modelos importados de universo pop, a começar lá pela Jovem Guarda e seus terninhos emulando rebeldia de sessão da tarde. Passamos depois por dezenas de emulações e outras macaquices, passos necessários para chegar em artistas que efetivamente conseguiram juntar a sua aspiração gringa com algum tempero brasileiro, e soando íntegros, organicamente integrados.

Falo de uma junção verdadeira, de nascença, e não inserções forçadas como as sanfonas nos Raimundos, que nunca tiveram pretensão maior do que soar como um Ramones bobagento cantado em português. Falo aqui de gente que nasceu bebendo de ambas as vertentes, a gringa e a brazuca, e que, ressalto, façam boa música. Exemplos não faltam: Los Hermanos, Céu, Tulipa Ruiz, Wado, Apanhador Só, para ficar em cabalísticos cinco. Como nas listas, você sabe. Eu gosto de Raimundos, entenda, mas eles não conseguem mesclar suas pretensas influências regionalistas de forma convincente.

O indie brasileiro está representado na lista ali de cima, de uma forma ou de outra. Tem gente ali que gravou primeiro para exportação, tem gente ali sempre gravou em major, e tem até indie puro. O diferencial é a competência, canções que não dependem de um vídeo para sobreviver, que não tomam embalo para a praia em uma onda de hype. A Banda Mais Bonita, neste sentido, mostra uma canção que o Lobo Mau assopra e voa como uma casa de palha seca. Lembra muito o advento da Mallu Magalhães, que nunca mostrou realmente a que veio. Diz para mim alguém para quem algum disco dela realmente fez alguma diferença?

Banda Mais Bonita faz sucesso porque as pessoas estão loucas por um escapismo qualquer que os faça pensar que o mundo tem salvação. O povo quer se enterrar numa comédia romântica rósea onde todo mundo termina abraçado e feliz enquanto o Osama afunda no mar distante dos nossos olhos, e tomara que leve a nuvem de Fukushima para dentro da água, a plante lá no fundo. Aliás, preciso falar do casamento real?

O escapismo sempre foi um dos elementos básicos da música pop. Morrissey deveria ser condecorado pelo número de suicídios que evitou com suas letras, sempre prontas a abraçar os desajustados. Agora mesmo estou ouvindo Bernard Sumner entoar canções bobas de quatro minutos, e navego por um mar de yeahyeahyeahs totalmente chapante. Mas são canções inspiradas, com timbres interessantes, ritmos sedutores, estruturas que foram depuradas na cabeça de seus compositores por algo que a Inglaterra tem, e que o Brasil teria de desenvolver para replicar adequadamente seu modelo de música pop, especialmente o indie. Do que se trata? Falo de língua ferina, de falar mal mesmo, de esculachar a concorrência, como o fictício popstar quase aposentado faz em Love Actually.

No Brasil isto não funciona. Estamos cercados de bom mocismo, de pessoas cuidadosas que preferem ser hipócritas a emitir juízos que possam fazer murchar as flores dos colegas de classe. A Oração da Banda Mais Bonita da Cidade é uma canção medíocre, uma bobagem do tipo que as pessoas acham legal apenas quando estão num sarau de poesia movido a cogumelos e/ou egos inflados de universitário barbudinho. Oração é um triunfo da forma sobre o conteúdo, e não se trata apenas de uma letra goiaba, trata-se da própria composição, fraca, uma seqüência vazia de ganchos que vai dar ressaca em quem escutar mais de duas vezes.

Particularmente, eu enxovalhei a Oração assim que saiu, nem tinha contado o número de acessos, pois não é meu costume fazê-lo. Achei fraco mesmo, vi o vídeo até o final, para entender o que havia ali para ser visto; o vídeo acaba, não tem nada demais. Se eles aparecessem no meu show de calouros, eu os ajudaria, diria para eles procurarem novas influências, trabalharem mais suas composições, eles precisam, e é para isso que serve a crítica. Nada tenho contra o sucesso de um indie, estão aí REM, New Order, e mais uma penca, mostrando que não é necessário ter má qualidade sonora para fazer sucesso. Vale a pena chegar ao sucesso com uma canção que está bem abaixo do nível dos caras de quem eu falei lá em cima? Ser indie, enfim, não tem a ver com um ideal, com fazer algo diferente do que se faz no mainstream?

***

Agora, vou confessar: odeio universitário metido a feliz. Que gente chata!

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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17 respostas para A Mediocridade

  1. Erlon disse:

    Fantástico seu texto! Definiu tudo e o silêncio pós-mais-de-um-milhão-de-acessos confirma a (falta de) conteúdo pra se sustentar, mas por outro lado, esse ranço com qualquer artista diferente que aparece na mídia do dia pra noite me incomoda. Enquanto isso, o funk carioca e o sertanejo domina todos os meios de massa … Ótimo finde pro6!

  2. Sr.Comendador disse:

    Acho que o que mais irrita nessa “Banda mais bonita…” é o ar de universitário descolado e feliz. Mas creio que seja algo somente desta música e deste clipe, pois ouvi umas 2 ou 3 músicas desse grupo e não vi nada de mais – elas misturariam-se com qualquer música de qualquer dessas bandas-novas-de-MTV.

    Escapismo? Bom, a música é tão bobinha e fofa quanto vídeos de gatos fazendo bobagem, mas quem não gosta de um gatinho cuti-cuti? E como há de se criticar isso se não houve imposição de nenhum modelo/movimento/tendência a partir da proposta estética deste clipe em específico? Explico: se a crítica apontasse o início de uma tendência “musicafofista” nos anos 10 e investissem midiaticamente nisso (lembram de quando o pop começou a ter ares de guitarras pesadas no começo dos 90?) até se poderia criticar, mas não é essa a proposta na obra desses caras. É uma ilha “fofis” num mar de mesmice.

    Escapismo? “Oração” não está no meu MP3 nem em qualquer mídia instalada em minha casa. Mas eu não tenho sempre saco de ouvir músicas que façam o favor de me trazer a todo o momento para o conforto dos meus ouvidos o que vejo de ruim na rua. O Turnes falou que era só uma música naïf, e é só isso mesmo.

  3. milene disse:

    Eu fui até preconceituosa (que feio, não me orgulho); quando vi aquela tripa de comentários no facebook sobre essa música, pensei: pelo teor dos comentários deve ser uma merda. Mas, claro, fui conferir.

    Não gostei porque achei (música e clipe) chatinha, ruim e forçada (aquela alegria blérgh e não quela alegria gerada espontaneamente), mas não acho que pra uma música ser boa ela precise ser originada de um processo complexo e regrado de composição. Se tiver feeling, for inspirada e sincera, tá valendo. O que pode estragar uma música é quando por trás da produção existe uma intencionalidade pré-definida (é mais complexo que isso, mas é mais ou menos isso). Pra mim existem músicas boas para momentos diferentes: vocal bom, instrumental viagem, letra inteligente, simples e não necessariamente todos os elementos reunidos numa mesma melodia…

  4. ai gentem, supera isso! nao gosta nao ouve
    eu nao gosto, bjs

    “dá ressaca em quem escutar mais de duas vezes”
    FATO

  5. Alexandre disse:

    pô.. o vídeo do beirut já tinha sido copiado por outra banda brasileira (ou cantor, acho q era um cantor). já era um vídeo chatinho tb. no mesmo esquema pessoas-cantando-bem-alegres-juntas-numa-casa. terminava num quintal.
    tô procurando achar de novo esse vídeo e nada… nenhuma resenha nem cita.
    alguém aí já viu?

  6. Loan disse:

    Hola, Gilvan. Legal teu depoimento, mas ainda pareceu-me exigente demais para algo que nem teve tanta pretensão assim. Eles fizeram um clip, bombou, virou um viral, acabou. E se eles não quiseram lhe agradar? Para mim, eles não têm perfil de quem vai em um show de calouros, por exemplo – por mais “universitários barbudinhos” que sejam. Penso que se realmente fosses jurado de um show de calouros, duvido que ajudaria muito com esse pensamento do texto. Como disse, poderia murchar com suas flores.

    Mas não quero lhe censurar – nem tenho esse poder, e não quero. Só quis expressar, entretanto, que esse lance de “abaixo ou acima do nível nacional ou mundial” parece meio fora de questão aqui. Algumas pessoas não ligam pra isso.

  7. Don Mattos disse:

    Caralho, bicho, tu és chato pra caralho!

    Essa revoltinha que quase todo texto teu tem, tem um cheiro muito forte de artista/intelectualóide frustrado.

    Não quero aqui defender a banda em questão, tu não gostou, beleza, eu gostei, beleza também, não é esse o caso.

    A questão é, teus argumentos são tão bem embasados quanto um cara que vai decidido convencer a menina a trepar com ele, mas sólidos como a ejaculação precoce do mesmo cara.

    Pode ser que, de fato, a banda venha a morrer na praia da repetição desta música, pode ser que não. Se fosse hoje, e não 1998, é bastante provável que Los Hermanos explodissem através de algum vídeozinha na internet, e não através dos violentos Jabas da Abril, que deus a tenha.

    E, tanto é provável que eles explodiriam através da internet, quanto é provável que tu esculhambasse com eles do mesmo modo que fez com a Banda que recebeu a menção honrosa de constar num texto teu. Até por que, o gatilho dos cariocas barbudos foi Ana Julia, depois veio Primavera, e um disco de hits para adolescentes apaixonados e/ou descornados.

    E na tua visão, nestes argumentos que usaste aqui para falar da Banda mais bonita da cidade, que me parecem extremamente reducionistas e simplistas, eles, os Los Hermanos, teriam morrido na praia de Canasvieiras, logo após terem tocado no palco do Planeta Atlântida e repetirem num mesmo show, por três vezes, a tal da Ana Julia.

    Não dá para levar a sério um texto que se diz crítico e reduz uma banda com toda uma obra, toda uma história, a uma única música. Isso é fraco, vazio, parece birra de criança que queria um brinquedo igual ao do amiguinho, mas os pais não puderam comprar.

    Crítica é válida, mais do que isso, necessária. Sou amigo do Jean também, e conversamos bastante, concordando, discordando e criticando sobre os mais diversos assuntos relacionados a arte, mas, de um modo geral, com o cuidado de não reduzir tudo o que é feito, a uma fração do todo.

    Levaria teu texto a sério, caso tivesse uma análise da banda citada em cima de mais coisas que eles fizeram, e não em cima de um vídeo que, para sorte deles, se tornou uma febre na internet.

    Pode ser que tua profecia se concretize e eles venham de fato a se esvair após esse boom inicial, como tua profecia pode ser tão crível quanto o fim do mundo marcado para o fim de semana passado.

    Repito, a razão deste meu comentário não é para dizer que a tal banda é ou não é boa, e sim que críticas desse tipo, muitíssimo bem escritas (o que sou obrigado a admitir e te aplaudir, apesar de teus textos serem ranzinzas e com uma crônica dor de cotovelo do mundo, tu escreves muito, muito bem mesmo), mas que reduzem todo um trabalho que as pessoas fazem, a uma minúscula parte dele, ainda que tenha sido a parte que ganhou notoriedade nacional através de um videozinho simples e bem feito.

    • gilvas disse:

      agradeço o elogio. sou chato mesmo. critiquei o vídeo. achei uma bosta. assim como a música. sinceramente, não deu vontade de ouvir mais. a banda, então, é apenas este vídeo e esta música. pelo barulho que faz, é a melhor que eles já fizeram, e eles já estão no mercado há muito tempo. se oração é irrelevante assim, imagina o resto. eu não sou profissional, e não tenho de preencher uma pauta sobre a obra da banda. estou apenas escrevendo porque isto me diverte enquanto expressão, tanto em conteúdo quanto em forma. agradeço, inclusive, o elogio, agora sem ironia, em relação à minha escrita em si. mas não é para levar a sério, é para divertir, embora deva ter qualidade. como boa música pop. esta explosão de atenção provavelmente vai acabar com eles, infelizmente para eles. a mídia é voraz, vai querer fazer deles um pônei de um truque só. seria melhor se eles tivessem chegado devagar, com jeitinho. mas não é culpa deles. espero que não convidem nenhum deles para posar pelado.

  8. milene disse:

    hahahahahahahahahahahahaha: “odeio universitário metido a feliz. Que gente chata!” Estou sem tempo para responder, mas é que esse final me matou de rir. Sobre o post, penso parecido contigo, mas com um pouco mais de leveza, hehe.

  9. martha disse:

    paguei um pau pro seu texto

  10. Turnes disse:

    Já fostes numa “tocata”? Era muito comum nos 90 pela imediações da Lagoa. Era uma festa em que cada um ganhava um instrumento na entrada, tomava-se vinho de garrafão, fumavam-se cigarros com um cheiro esquisito, às vezes rolava um “contact improvisation” e no final o pessoal ia pra casa feliz e com o suvaco vencido.
    Sobre a música, achei só chata, repetitiva,sei lá, naif mesmo, não entendi a repercussão, os amores e ódios despertados…não sei pra quê. Acho que o pessoal da internet tem um senso estranho de apreciação e julgamento e as coisas ganham dimensões indevidas e descabidas…é um lance a ser estudado.
    Mas acabei lendo uma entrevista de um dos garotos que dizia mais ou menos assim: “foi um fenômeno do bem, repercutiu assim porque somos do bem…e a internet está cheia de vídeos de drogados e depressivos”. Dei uma vomitadinha.

    • gilvas disse:

      renato, tem dias em que eu penso que vou apenas escrever textos para te provocar a escrever os teus comentários geniais. para manter o lance hippie, pensemos em um círculo do bem, algo do tipo o mafra escreve, eu rebato, tu comentas, depois ele se inspira em algo que tu fez no teatro e por aí vai.

      estes guris, por sua vez, embarcaram na onda da “bondade” atual, estes tempos bondosos em que pessoas não podem solicitar uma discussão sobre a legalização de um capim, em que as florestas são um entrave ao desenvolvimento do agro-negócio, em que uma presidenta tem de rebolar conforme a música carismática que a igreja toca.

      a ansiedade da internet faz com que as pessoas amplifiquem aquele sentimento que thom yorke cantou tão bem em the bends, “i wish it was the sixties, i wish i could be happy, i wish that something could happen”. todos querem que algo aconteça, qualquer coisa por uma vida menos miserável, mas aí acabam aplaudindo a mediocridade. uma pena.

  11. Ian disse:

    Eu tenho ódio mortal de indies. Todos eles deviam apodrecer no inferno por toda a eternidade, pra mim! hahaha

    • Essa década vai ser pior que a de 80. Era uma merda e as pessoas cantavam isso. No punk, no pop, no rock. Hoje tá uma merda mas as pessoas não cantam isso. As pessoas parecem uma panela de pressão, em que pedir um licença meio torto fica sujeito e levar uns tecos. Mas, no entanto, o que vemos é “um outro mundo é possível”, “humor do bem”, “não sei o que do bem”. Acho que isso surgiu da onda do politicamente correto, não sei. O “punk” hoje fala de amor e é colorido. Se fizermos uma leitura do mundo (ou do Brasil, que seja) através da produção cultural, parece ser um lugar maravilhoso para se viver.

      • gilvas disse:

        realmente, eu não havia pensado que a visão multi-colorida pudesse encerrar uma vontade mercadológica, um modo de vender um brasil róseo. paradoxal é que tropa de elite seja nosso ápide de realização cinematográfica comercial, mas aí o indivíduo pode dizer que se trata da mais pura ficção.

        em tempo: teu comentário ainda aponta para o endereço velho no wordpress.

      • Pois é, mas mesmo sendo violento e mostrando uma situação mais crua e dolorosa, Tropa de Elipe traz uma certa mensagem de esperança, com o mocinho se dando bem, (alguns d)os responsáveis sendo presos etc. Tudo bem que já encheu o saco o Brasil sofrido dos filmes de outrora.
        Mas o que é um chute no saco mesmo é essa noção ingênua do bem, pegaram milênios de discussões filosóficas acerca do bem e do mal e jogaram no lixo. Pasteurizaram o bem, o certo e a verdade. Como tu comentou no texto sobre os extremos, hoje não há espaço para meios, ou é um ou outro, quem estiver no meio pertence aos dois e a nenhum. Dependendo da situação vai ser “do bem” ou “do mal”. Mas isso é só por fora, porque por dentro as pessoas parece mais rancorosas, estúpidas e desrespeitosas do que nunca. A Lei de Gerson come solta.

        P.S.: Valeu pelo aviso do blog.
        P.P.S.: Acabei clicando no “responder” errado no comentário anterior. Mal aí.

  12. mafra disse:

    e agora, o que é que eu digo? que teu texto tá melhor, que embora tenha destacado outra questão nas minúsculas fiquei com vontade de deletar meu post?

    porra, gilvas, tô te devendo uma cerveja.

    agora, de todo modo, pergunto, será que não fui claro? meu texto era na verdade sobre outra questão, ligada ao sucesso do grupo: os comentários agressivos de blogs e do youtube e do facebook…

    (o pior é que até pensei no teu, enquanto escrevia, mas não achei que isso se reverteria num texto).

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