Subversão Corporativa

As agências de testes vocacionais deveriam ser rastreadas pela inteligência nacional. Todas. Assim que saísse um candidato fortemente inclinado a seguir uma carreira em publicidade, ele deveria ser seguido por agentes especiais, e obliterado deste plano de existência. Em silêncio, sem perguntas, sem argumentos. Ponto.

Escolas de publicidade deveriam ser como aquele concurso que o Schwartza esculacha em Running Man, deveriam ter um fim ilusório, uma ilha de oportunidades profissionais, uma coisa caribenha e os esqueletos de todos os calouros em uma sala qualquer. Alívio da civilização.

Seria uma medida preventiva, em defesa de um mundo onde as pessoas querem decidir o que querem e do que precisam. Sem bombardeios pela televisão, sem cartazes gigantes nas ruas, sem um batalhão de pessoas pensando em formas de te fazer infeliz ou gordo. Ou as duas coisas. Quando eu for o ditador supremo da humanidade, algumas coisas mudarão. Enquanto isso não acontece, resta-me resmungar.

Publicidade é algo que não raro ocupa espaço em minha tela mental de rabugices, mas demanda algum evento especial para realmente gerar alguma reação escrita. Evito televisão, então tenho poucas razões para que este mau hábito venha à tona. Desta vez foi um cartaz e uma conversa com uma amiga. Sobre Coca-Cola.

Tenho lido muito sobre administração; estou fazendo uma especialização na área, então preciso me inteirar sobre como as empresas trabalham sua estratégia para sobreviver nestes tempos bicudos. Elas, em geral, se reinventam, buscam novos nichos, recriam seus produtos, revisam suas abordagens, buscam opções em um mundo em mudança. Pensa no que a Fuji, uma fábrica de filmes, teve de fazer por ocasião do advento da câmera digital? Então, ela teve de se virar, teve de criar uma nova identidade, novos produtos, um jeito novo de encarar o mercado, ou estaria morta, sem chance nem mesmo de humildemente sobreviver.

A indústria do refrigerante é algo que me intriga. Um caso interessante para avaliar. Refrigerantes, eu não preciso te contar, são lixo. Doses absurdas de açúcar, sódio a entupir os rins, gás carbônico em bolhas e nenhum ingrediente sequer vagamente útil para o consumo de um ser humano. Lixo, simples lixo. Como uma empresa sobrevive vendendo lixo em uma sociedade que, lentamente, está se tornando mais consciente?

Bom, uma das formas é vender não apenas o lixo explícito. A Coca-Cola Company fabrica a Heineken no Brasil,  eu, mais todo o povo do Blues e do Midnite, nós temos consumido muita Heineken. É lixo, sim, estufa minha barriga, me faz ter gases, ajuda pessoas a dirigirem pior do que quando estão sóbrias, e assim por diante. Lixo.

A mesma empresa fabrica, ironia, esta rainha do universo, água. Em garrafas plásticas bonitas. Com adoçante. Com sabor. Refrigerante, em suma. Lixo, por consequência. Tem gente que bebe, jura que faz bem. Neste ponto eu já estou quase admirando a inventividade dos publicitários da Coca-Cola, aquele bando de crápulas monstruosos que passará o pós-morte em algum nível do Inferno que o chato do Dante não teve as manhas de descrever.

O que realmente me encafifa é como diabos este povo tão criativo tentaria reinventar a Coca-Cola, este ícone do século XX, em tempos ambiental e politicamente corretos. O troço é indefensável, não tem o que tirar de bom daquilo. Tipo, os caras venderam a Coca-Cola como uma espécie da juventude ativa dos anos noventa, o que era bem viável no contexto das drogas abundantes. Coca-Cola ainda é algo excelente quando se trata de apoiar o arrependimento em relação à manguaça do dia anterior. Ela se torna boa por isso? Não! Ela apenas coadjuva no processo de intoxicação.

A solução que os publicitários, estes meninos incorrigíveis, estes moleques peraltas, sapecas, eles amarraram a Coca-Cola a uma espécie de autoajuda planetária. Usaram um nó cego, pelo jeito. Assim, não faz o menor sentido. É algo tão absurdo que não sei nem por onde começar a argumentar com outras pessoas. Eu cresci em um mundo onde os vilões eram discerníveis na tela do cinema, e onde as pessoas estavam cientes de estarem se prejudicando quando, uhm, tomavam refrigerantes, por exemplo.

Agora o lance dos nossos amigos da Coca-Cola é viver positivamente. Isso, afasta esta carranca, vai cantar Oração com os outros goiabas, joga teu jogo de assassinato em primeira pessoa com um sorriso no rosto, encara esta vida idiota de oito a dezoito como a coisa para a qual a evolução das espécies nos preparou.

A Coca-Cola é sua amiga. Ela se associou a pessoas simples que fazem coisas inacreditáveis, pois a Coca-Cola acredita nessas pessoas e no mundo que elas preconizam. Este mundo emana também de uma garrafa aberta de Coca-Cola, embora muitos não acreditem que este mundo possa emanar de uma latinha do mesmo refrigerante. O mundo, enfim, mora nos detalhes, mesmo quando estão simplesmente mentindo para você. Descaradamente.

A reinvenção do refrigerante mais consumido no Brasil realmente me deixa embasbacado. Sabe aqueles pesadelos em que você é perseguido por alienígenas malvadaços, em que você sente que é questão de segundos até você ser capturado e ter o mesmo destino de todo o resto da humanidade? Então, você está captando a ideia.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Subversão Corporativa

  1. Kraucher disse:

    Rapaz, você escreve muito bem. Senti até uma ligeira vergonha do que escrevo, mas acho que a vida é assim mesmo, e a gente está sempre procurando melhorar (e sempre vendo gente que é melhor que você).
    Curti pra caramba!
    Aliás, foi a Angela de Curitiba que me indicou, mande um alô pra ela ahahahahaha

  2. Anarcofágico disse:

    Compactuo com seu ódio.

  3. md disse:

    hum.. sorte sua ter crescido num mundo o refrigerante era questionado.
    Concordo que o refrigerante é lixo mesmo, mas o que faz a coca cola vender tanto além da sua propaganda: é gostosa e vicia.
    juntando com o pagando bem que mal tem, os publicitários transformaram a coca cola numa espécie de deus liquido que vem pra te salvar de todo o tédio e dos dias chuvosos, através de papai noeis fofinhos, animações coloridas e ursos amigos.
    mas não teria todo este sucesso se o gosto fosse ruim.
    liga não. Logo mais alguém lança #bebidadodemonho no twitter e pronto.

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