Marc Fitoussi: Copacabana

“Admiro o trabalho de Isabelle Huppert” é uma frase que, para mim, materializa uma obviedade tremenda. Huppert é a dama do cinema francês das duas últimas décadas, e falo de interpretações irretocáveis, ainda que incômodas, como em A Professora de Piano. A atriz sempre se encaixa de forma perfeita ao seu papel, exceção possível ao seu trabalho em I Love Huckabees, onde um certo desconforto é notável, tanto pela língua inglesa quanto pela premissa surreal daquela excelente comédia.

Entretanto, é delicioso poder se surpreender com a guinada que ela dá, em Copacabana, no poderíamos chamar de seus papéis típicos. Huppert é Babou, uma despirocada que continua vivendo nos anos setenta, considerando aí toda a devida carga de nova era e atitudes espaçosas e constrangedoras.

Huppert desenha o seu personagem em cerca de dez segundos, na abertura do filme, com o som captado em natural e a câmera meio balouçante que se aplica em várias produções atuais. Babou, nos trejeitos de Huppert, é rapidamente delineada como uma espécie de Zé Carioca em terras francesas.

A rapidez com que as intenções do diretor são percebidas me incomodou um pouco, confesso. Poderia ser habilidade na condução da percepção da platéia presente, poderia ser a aplicação rasteira de um clichê, de um carimbão padronizado contendo um pacote de preconceitos e simplificações. Mas é Madame Huppert quem está ali, e ela torna brilhantes mesmo os contornos algo simplificados da chefe de Babou na imobiliária, ou o casal de andarilhos com seu, também clichê, labrador.

O filme, inteligentemente, brinca com estes clichês. A filha de Babou, aqui interpretada por Lolita Chammah, filha de Huppert na vida real, em certo momento, se refere ao supracitado casal de andarilhos como clichês, “do tipo que se encontra em qualquer rave”. Assim, talvez não seja o caso de criticar a aplicação de clichês no filme, mas sim abismar-se com a multidão de clichês no mundo real.

Babou adora música brasileira, e o diretor acerta no repertório, não se joga às banalidades onde derrapam, em geral, as produções gringas. Babou, como o psitacídeo que Disney idealizou para representar o brasileiro em suas animações, vive com o orçamento estourado, nunca tem um puto, e não faz idéia do que fazer com a sua vida. Não que isto seja um problema, trata-se apenas de uma postura de despreocupação com o dia seguinte, uma faceta eternamente focada pelo analista estrangeiro.

A estrutura complexa de acordes, as harmonias elaboradas e os ritmos suingados tornam a personagem de Huppert algo desconfortável na tela. Ela requebra de uma forma visualmente incômoda, seus quadris treinados no palco obviamente mais soltos do que os de um turista alemão, mas ainda assim alienígenas, não-brasileiros. Babou alcança a autenticidade nestes momentos, e a sustenta. Sem esta conquista, cenas hilárias, como a em que ela despacha o trabalhador portuário de contornos românticos, não funcionariam, seriam inverossímeis. O mesmo vale para a cena fofa em que ela ajuda o genro a salvar o relacionamento.

O filme concentra seus conceitos e suas intenções para uma explosão final durante a festa de casamento, cafona e desanimada, claro, de sua filha. Babou surge em meio a um grupo de samba para deixar sua marca no evento da filha. É mais um momento tenso, onde o diretor anda no limiar, e Huppert, heróica, é quem faz a coisa funcionar.

Ao final do filme, fica clara uma das razões para o seu sucesso. O diretor se referencia a uma brasilidade falsa dos anos setenta, uma recriação dos valores nacionais tupiniquins dentro de sua protagonista. O mote (dis)funcional é o conflito de gerações e o, quase sempre difícil, relacionamento entre mãe e filha, mas o que torna a película memorável é o mesmo truque a que a Pixar tem apelado em suas animações, recriar a atualidade com elementos idealizados de eras passadas. Esta abordagem inspira uma reavaliação do presente pelo espectador, o que se traduz por aquele gostoso efeito de sair do cinema após ver um filme que que diverte duplamente, tanto pelo entretenimento quanto pelas conversas de boteco que instiga.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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