A ficção está em outro lugar

A ficção, mais a torto do que a direito, é algo difícil de gestar. Deveríamos aplaudir os escritores de ficção por seu temerário desafio aos rigores da crítica, tanto qualificada quanto desqualificada. O desafio de um martelador de letras inventadas é tornar os eventos descritos verossímeis, de modo que um leitor reconheça na narração elementos reais em quais se ancora a narrativa que roda apenas na mente. Todavia, o que mais alegra aos arquitetos da existência, parece-me, é exercitar a ironia. Eles se esbaldam criando situações absurdas, e fazem as rotativas dos jornais se empapuçarem de histórias burlescas que só são críveis pelo fato de que foram testemunhadas. Se tais disparates houvessem aparecido num livro de ficção, as vozes do populacho se juntariam em um coro poderoso desfiando insultos ao autor. Porém, como são fatos inequívocos, vistos pelos olhos de alguém que a terra há de comer, não há como negá-los. Pobre do escritor de romance, tudo o que tem para criar seus fragmentos de universo são suas experiências e um vasto passado registrados em livros de história e periódicos diversos; regurgita sua narrativa depois de ter ingerido doses cavalares de passado, meio azedo, meio mofado, quase indigesto. Zombeteira, a realidade, indiferente às complicações que engendra, continua criando novos dias no frigir do instante. Como um dado que já deu diversas vezes um 6, a vida real coloca raios exatamente sobre o ponto sobre o qual descargas antecessoras haviam caído, e faz com que os outros jogadores emitam um sonoro “rabudo” para o jogador que tira mais um inacreditável 6. A realidade, enfim, é injusta com o escritor, tira fragmentos inéditos, fresquinhos, enquanto ele não está olhando, o relega ao papel de imitador, puro re-arranjador de tijolos que já foram usados.

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O título deste texto é uma homenagem ao cara que provavelmente escreve os melhores títulos de romances, Milan Kundera.

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Eu também escrevo textos de ficção, ou escrevia. Dê uma olhada aqui, caso interesse.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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