Reciclando as boas intenções

Tem aqueles dias em que eu sou mais polianesco do que o normal. Um dia em que a síndica aqui do prédio veio me falar sobre uma oficina de reciclagem de lixo. Em minha cabeça desenhava-se, a partir daquela informação, um condomínio entrando no século XXI com o pé direito, as lixeiras separadas, as pessoas sendo conscientizadas em uma oficina. De onde o lixo vem, para onde ele vai, será que eu preciso desta montoeira de plástico que embala meu rango? Perguntas pertinentes, gente crescendo com estas idéias.

Até o momento em que ela se dispõe a te explicar o teor da oficina. “Ah, vem uma senhora ensinar as crianças a fazer brinquedos com as tampinhas plásticas.” Acuma? Dentro da minha cabeça eu escuto o som inconfundível dos sonhos se quebrando, algo tipo um monte de bolinhas de árvore de natal vindo ao chão ao mesmo tempo. Acuma? Eu me senti mais ou menos como a menina do jarro de leite, aquela que sonha com uma granja e acaba por tropeçar. Embora eu não curta metáforas lácteas atualmente.

Eu gosto de pessoas bem-intencionadas. Elas colocam algumas cores pastéis na paleta sombria dos dias e nas pinceladas rascantes das noites, parece justo haver algum equilíbrio, aquele sentimento de avó, roupas antigas e sapatilhas.

Entretanto, boas intenções raramente significam eficácia. As boas intenções possuem aquela característica medonha, que o Morrissey dizia habitar os sonhos, de raramente darem certo. Chega aquela senhora aposentada, toda feliz por estar ajudando o mundo, e tira quatro tampinhas de garrafa pet, todas da mesma cor, de uma enxurrada de lixo. Ela as cola em uma caixinha de suco pasteurizado diante de um bando de crianças que estão loucas para voltar para seus celulares e seus pleistêixons.

Hoje mesmo vi um caminhão, dos grandes, bem sujo, trafegando pela Beira-Mar. Vazio de lixo. Devia estar voltando de Biguaçu, que recebe uma bonificação para emporcalhar seu território com nosso lixo. E a coisa só piora. Aumenta o nível de vida, aumenta o lixo, coisa medonha ver as lixeiras transbordando no domingo de noite. Isso porque faz tempo que não rola greve. Se os lixeiros parassem, as sacolas cheias começariam a vagar em ondas pelos condomínios, chegando às portas, atulhando as garagens, monstruosas sacolinhas brancas cheias de papel plastificado e sangue de comida congelada.

E ninguém brincando com o carrinho de caixinha de suco.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Reciclando as boas intenções

  1. Christian disse:

    Surpreende-me nisso o fato de que a mídia, que rapidamente abraçou todas as causas ambientalistas (as importantes, locais, práticas, e as de mentirinha, globalistas, aquecimentistas), não tenha ligado os pontos para perceber/divulgar a relação entre lixo e consumo.

    O sujeito que chama brinquedo de garrafa pet de «reciclagem» está no mesmo nível daquele outro que cola o adesivo do S.O.S. Mata Atlântica em seu SUV movido a diesel.

  2. mafra disse:

    parada sinixtra.

    fazia a organização do material reciclável do meu prédio… até a prefeitura de são josé cancelar a coleta deste tipo de “lixo” em nossa região… sinixtru!

  3. Turnes disse:

    É Moleca! Moleca!

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