Harmada: Música Vulgar para Corações Surdos

Música Vulgar para Corações Surdos é feito para você que parou num ponto um pouquinho depois de Pablo Honey, o disco do Radiohead que ninguém confessa amar. As guitarras são nervosas, as canções te conquistam de cara, tão de cara que te dão uma leve vergonha de se apaixonar por algo tão direto. 37 anos te fazem um tanto desconfiado da impetuosidade juvenil em cantar o que sente.

Eles são cariocas e exibem um sotaque 2000 e tantos anos, decididamente contemporâneos. Localizam-se emotivamente entre Los Hermanos e alguma banda de emocore que eu não conheço. Talvez o primeiro disco do Los Hermanos explicasse bem se não fosse simplesmente tão desconjuntado. Música Vulgar para Corações Surdos é coeso, produto de uma cena indie bem arada, um terreno em qual se passa plantando e não derrubando touceiras de medalhões sessenta, setenta e oitenta. Se os anos noventa tiveram algo de bom é não terem deixado nenhum ícone a ser respeitado.

Neguinho vai dançar de rosto colado com o espelho, vai andar pela calçada pisando apenas nos ladrilhos de cores iguais e saltando os outros com os fones nos ouvidos, vai lembrar de como era estranho gostar tanto de alguém que um dia simplesmente pulou para fora da panela, de como é estranho andar em linha reta e não saber exatamente nada sobre nada. Vai pensar que 500 Days Of Summer faz todo o sentido do mundo.

O disco poderia ter menos canções. Tem catorze. Doze seria um atestado de influência das bandas inglesas e norte-americanas que influenciam o conteúdo. Mas onde ficariam os lados B neste país que não tem compactos? Melhor lançar tudo então, ser ouvido. Harmada é sobre isso também, urgência. Manoel Magalhães canta numa intensidade que faz tudo menos disfarçar a dupla de barbudos cariocas; coisas de primeiro disco, não é problema, não.

Por outro lado, encanta o domínio que eles demonstram ter sobre a linguagem que adotam. As historietas fabulam dentro do cotidiano, sempre perdendo ou sendo perdido ou se perdendo, ou uma mistura disso tudo que faz sentido para qualquer um que já viveu uma história de amor.

Harmada, se ficar restrita aos redutos indies, ah, ia ser uma pena. Eu mesmo quase esqueci deles aqui num canto do meu HD para descobri-los por acaso agora de noite. Nunca é tarde.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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