Duncan Sheik: Covers 80’s

A idéia de um disco do Duncan Sheik apenas com versões não é nova; ele já havia feito isto em Humming Along, EP que saiu junto com seu segundo disco. No EP, quatro canções, três das quais oitentistas, e mais o tributo ao ídolo Nick Drake.

As versões de Sheik são tanto melhores quanto mais as originais se distanciam de seu pop sofisticado de base acústica. No caso do EP, destaca-se Blasphemous Rumours, carregada de sintetizadores e de ruídos industriais que transitam de um fone-de-ouvido ao outro, e que se transforma completamente na regravação.

Não por acaso, Sheik começa seu disco de covers oitentistas com outra versão de Stripped, que já havia sido patrolada alguns anos atrás pelo Rammstein. Senti falta dos relógios no início da canção original, mas os músicos competentes de que Sheik se cerca seguram a onda.

As doze canções, díspares em suas versões originais, formam aqui um álbum do Duncan Sheik. Ele imprime a todas as canções seu tom uniforme. Há uma certa ironia aqui. Sheik é um compositor requintado, que explora nuances musicais com maestria e precisão, raramente resvalando no mau gosto. Esta evolução é notável ao longo de todos os seus discos.

Todavia, não é sofisticação o que se via nas paradas alternativas dos anos oitenta, embora tivéssemos algumas exceções. Sheik, desta forma, precisa trabalhar com algumas restrições. Em alguns casos, isto redunda em versões que pouco acrescentam ao seu soberbo original, como na comovente história do soldado que o New Order retratou em Love Vigilantes. Kyoto Song é outra que fica meio apagada sem os violões pseudo-hispânicos do original.

O mérito das versões lentas e espaçadas de Sheik é que elas homenageiam e revisitam as canções que o influenciaram. Confesso que cantava várias dessas canções com lacunas nas letras, e acabei aprendendo muitas delas agora, ouvindo as versões.

Olhando de forma desapaixonada para o disco, algum cínico poderia taxar a iniciativa de Sheik como uma investida na faixa de mercado que o Emerson Nogueira ocupa no Brasil. Versões como a de So Alive, sucesso do Love & Rockets, com seus pianos pingados ao estilo de Harold Budd, negam este veredito. A parte final, etérea e sussurada, flutua em minha memória com insistência.

Minha predileta, entretanto, é a versão para um original que eu não conhecia. Stay, do Blue Nile, é de uma beleza singela, delicada e encantadora. É minha candidata a audições contínuas e suspiros mil, e a desastradas tentativas de reprodução ao violão aqui em casa.

Vale um parênteses aqui. Sheik é sereno em suas versões despojadas de modernices, e sereno, muitas vezes, nos parece ser melancólico. Em pessoas a mesma sensação aparece; pessoas serenas podem parecer tão tristes a ponto de não resistirmos e perguntarmos se elas estão bem. Stay é assim. O violão saltita, o piano pinga como em So Alive, e uma guitarra carregada de efeitos transita bem ao fundo, como uma lembrança. Sheik encanta em seu jeito de cantar, no limite perfeito em que uma bossa não é uma bossa ainda. Fecha parênteses, que nem parênteses, enfim, era.

Shout, do Tears For Fears, começa esquisita sem os contrapontos vocais da dupla original, embora haja aquele maravilhoso efeito de clarear as letras, que ficam emboladas no original cantado pelo Roland “batata-na-boca” Orzabal. A coisa fica boa demais, entretanto, no final, quando os vocais de apoio se somam aos pianos, intercalando as frases no efeito que é um dos trunfos do technopop, os arranjos vocais.

A mais fraca das faixas é Gentlemen Take Polaroids: repetitiva, sem graça. A versão do Talk Talk é arriscada. Neil Hannon já havia tentado, mas o problema é que Mark Hollis e sua banda não conseguiam dissociar composição de arranjo. A versão decepciona, mas também não surpreende. Valeu pela intenção.

Os Smiths ganham uma segunda versão, com William It was Really Nothing, que perde aquela urgência de um Morrissey xingando a gordinha que leva seu precioso William, e reforça, de forma encantadora, a frase “I don’t dream about anyone except myself”, que é um dos melhores epigramas de Mozz.

***

Duncan Sheik já é da casa:

A Incomunicabilidade

Resenha: Whisper House

Resenha: White Limousine

Such Reveries

Resenha: Phantom Moon

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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