Lars Von Trier: Melancolia

Lars Von Trier me fascina. Não exatamente a sua figura ou o seu cinema, mas a relação que as pessoas desenvolvem com a sua figura e com o seu cinema. Melancolia tem recebido diversos elogios, e alguns muxoxos, sendo que os primeiros, no campo amostral que percebo, vêm numa turma maior.

Isto me fascina porque Von Trier insista naquela bosta de câmera balançando. Trata-se de um cacoete extremamente irritante que ele trouxe de seus tempo de Dogma. A justificativa estética é a de que a câmera na mão traz o espectador para dentro da cena. Tenho visto tal recurso em outras produção, e confesso que a coisa funciona, mas ela exige, para funcionar, que haja um grande diretor de atores envolvido.

Von Trier falha pateticamente neste quesito. Seu soberbo elenco é desperdiçado em papéis, quase sempre, unidimensionais. Senti dor física ao ver Charlotte Rampling renegada a uma mãe resmunguenta que não acredita em casamento. Só faltou ela trazer correntes aos pés, e conversar com os fantasmas dos casamentos passados. Rampling, corrijo, não está em um papel unidimensional; para ser justo com a geometria, deveríamos compará-la a um ponto. E a culpa não é dela.

Na outra extremidade do casal encontramos John Hurt, também esmagado como uma bolinha de papel. O trocadilho é válido. Nas primeiras intervenções dele, picarescas, eu imaginei que Von Trier estivesse trabalhando com alguma metáfora, nos contando alguma parábola dentro da trama. Mas não, ele estava apenas sendo chato. Hurt repete dezenas de vezes algo que deveria ser uma piada e que envolve diversas Betties. Von Trier leva o constrangimento ao ponto de que a piada se torna risível, e você deve saber que não é pelas razões certas.

Von Trier tem seus bons momentos, claro. A paixão com que ele filma a figura de Kirsten Dunst é comovente. A câmera, sim, aquela câmera de cinegrafista bêbado de filme de horror persecutório, é carinhosa com Dunst, acaricia sua figura, abraça-se a seus movimentos. As imagens são bonitas principalmente porque a personagem é uma pessoa chatíssima. É desculpável.

A música de Wagner é belíssima por si só, e as imagens cósmicas que a ilustram me remeteram a 2001, a melhor ficção científica já filmada. No início do filme, as montagens ecoaram como alguns dos vídeos da Björk; não é um bom sinal, apenas atestam que Von Trier é um truqueiro, e não um cineasta. Um embuste, uma fraude pomposa.

Confesso que gostei de Dogville, e ainda mais de Manderlay. Neste segundo, Von Trier estava livre das amarras que a surpresa, aquela do cenário mínimo, havia se dissipado, e deu alguma atenção ao fluxo da narrativa. Em Melancolia ele se mostra menos sádico com suas protagonistas femininas, ou, pelo menos, muda o referencial a partir do qual elas sofrem com seus castigos.

O andamento do filme é quebrado, e a linha narrativa se perde em diversos momentos. Von Trier é pretensioso, e seu cinema orbita seu umbigo a uma distância pouco segura. Sua mão descontrolada extrai o máximo dos atores, mas não entrega este sumo ao filme. O que se vê são focos de interpretação que não conseguem se conectar aos outros, como se fossem boitatás atravessando um gramado de golfe em uma noite nem tão fria.

Uma cena de Dunst com seu chefe, interpretado por Stellan Skarsgård, traz à tona outro cacoete do ex-Dogma: as cenas de revelação em família. A variação aqui é que se trata de uma relação de trabalho, mas continua valendo o ritual da protagonista revelando que tudo, oh!, é hipocrisia, que ela odeia seu chefe e seu emprego. Nada disso, entretanto, justifica o constrangimento de ver o sobrinho do chefe perseguindo Dunst para extrair-lhe um slogan. O moleque deveria ilustrar a incompreensão de todos pela iluminação súbita da personagem de Dunst, pelo jeito. Ou a incompetência de Von Trier.

Kiefer Shuterland faz o que pode, e eu diria que é o ator que menos queimou seu filme em Melancolia. Charlotte Gainsbourg consegue se safar com umas corridas descontroladas e uns exageros maternais. Aliás, o mais chato em Von Trier é uma certa condescendência conosco, tolos que não conseguimos penetrar no mistério da mente privilegiada deste diretor que é uma dádiva dos povos do norte para o restante da humanidade. Von Trier é didático, e repisa suas lições baratas de moral até o limite da paciência, ou do sono, do espectador.

Melancolia, eu diria, é um daqueles filmes com um excelente conceito e uma sofrível execução. Eu pensava nisso na cena final, que é bem interessante até. Se me falassem hoje que há um filme onde uma guria fica deprezaça depois do casamento e um planeta se choca com a Terra, bem, eu ficaria interessado. De novo.

Desde que, claro, não tivesse sido dirigido por Lars Von Trier.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Lars Von Trier: Melancolia

  1. nanda disse:

    não me convenceu. continuo gostando do Von Trier.
    e Os idiotas é um filme incrível. você nunca fala dele! =P

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