Marcelo Laffitte: Elvis & Madona

Assisti ao filme brasileiro Elvis & Madona ontem, em companhia da Maricota e de mais quatro pessoas. Na sala toda. A entrada custou-me R$14,00, o que considero um assalto, dado que era uma terça-feira. O cinema do Iguatemangue, vocês podem perceber, não merce um pingo da minha simpatia.

Eu só vim a saber da existência desta película por conta de uma participação do meu amigo Renato Turnes. A divulgação do filme foi fraquíssima, e, sinceramente, o apagado cartaz da produção não empolga. Seria o caso de fazer um lançamento direto no circuito de locadoras e televisões à cabo? Talvez, mas eu gostei de ter visto o rosto de talhe clássico de Simone Spoladore na telona; é um rosto que fica lindo em quase todas as tomadas deste filme. Fora isso, a trama despretensiosa, ainda que competente, é um pouco menor do que uma telona.

O circuito GLBTYZ-coloque-as-outras-letras-que-quiser-depois, entretanto, estava com os olhos atentos para Elvis & Madona. Embora o diretor tenha sido competente, e conseguido extrair uma comédia romântica palatável a partir do pressusposto peculiar, o filme ainda é sobre uma lésbica e um travesti, e é uma vitrine importante em tempos de combate à intolerância e aos Bolsonaros de plantão.

Ainda que eu considere a militância válida, meu interesse em Elvis & Madona era de ordem cinematográfica, e não socio-política. Um bom filme deve sobreviver bem à retirada do seu contexto. E, em geral, a coisa funciona bem. A maior preocupação do diretor e do roteirista, eu penso, seria tornar o encontro dos protagonistas verossímil, e ainda manter o potencial de gargalhadas que a situação enseja. Neste ponto, apesar de ser demandada inviável tolerância do disque pizza, a coisa funciona bem, e a dinâmica do casal tropeça pouco.

O personagem que mais me deu nos nervos foi o pai de Elvis. O ator simplesmente não conseguiu achar o ponto de um personagem que seria essencial na trama. Coube a Spoladore, que parece muito o Wagner Moura na caracterização de Elvis, segurar as pontas e não deixar a maionese desandar. José Wilker tem lá suas desculpas por seu personagem caricato, perfeito para arrematar uma trama tensa como a de João Tripé, mas que tinha lá seu tiquinho de aventura dos Trapalhões. Vale pela diversão que proporcionou ao ator e à platéia.

O diretor acerta no tratamento da dinâmica do casal, que está soberbo. Cotrim e Spoladore se entendem bem, aproveitando as chances que a situação esquisita lhes dá. A troca conceitual dos papéis sociais e psicológicos é bem trabalhada, e a chegada da gravidez, geralmente uma saída fácil para roteiros furados de novela, é utilizada de forma inteligente. Lembrei-me, em alguns momentos, da minissérie, da DC, Camelot 3000, em qual uma das tramas mostra Tristão reencarnado no corpo de uma mulher e ainda apaixonado por sua Isolda. Elvis & Madona leva esta idéia mais longe, fechando o laço de inversões e retornando ao princípio pelo inverso. Sim, esquisito assim desse jeito, e intrigantemente divertido.

Ah, e o Renato estava ótimo como o gringo fuleiro que tentava agenciar Madona para um pornozão de pretensões pseudo-históricas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Marcelo Laffitte: Elvis & Madona

  1. Turnes disse:

    Obrigado, amigo.

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