A Tirania do Gosto

Houve, na virada dos anos oitenta para os noventa, uma rádio rock em Florianópolis. Na verdade, o tal ritmo não dominava a programação, mas estava presente boa parte do dia. Um grande amigo costumava ouvir esta rádio como se estivesse diante de uma capela particular. Se a rádio União dissesse que algo era bom, bem, só podia ser verdade, e, assim, deveria ser seguido por aquele, entre outros, gostos em formação.

Ser adolescente é, como qualquer escritor de psicologia barata pode testemunhar, complicado. O indivíduo precisa se impor, demonstrar uma personalidade que ainda não teve tempo de desenvolver, exibir as cicatrizes de experiências que ainda vai ter. Nesta fase de hodômetro baixo, agarramo-nos a gurus e a referenciais de algum bom gosto.

Lembro de como meu querido Depeche Mode era execrado por meu amigo, que era fã exacerbado de Pixies, e, mais tarde, de Doors. Depeche Mode era uma boy band, um bando de garotos branquelos que ele não diria, sob pena de perder a fachada de hombridade, serem bonitos, mas, bem, era isso que um roqueiro diria que eles eram. E ainda mais fazendo som eletrônico, “aquela coisa sem alma, aquela música programada que não precisava de mais do que alguns botões para vir ao mundo”.

Bom, a União fez um especial, uma hora inteira, sem intervalos, só Depeche Mode, entremeada por comentários sobre a biografia da banda de Sussex. Ainda que meu amigo continuasse não ouvindo Depeche Mode, e com razão, dado que não gostava da banda, agora ele havia colocado o quarteto inglês na lista dos artistas que poderiam ser ouvidos por pessoas de bom gosto.

O texto de hoje, entretanto, não trata de nostalgia. Trata de gosto, esta propriedade tão pessoal e tão difícil de desenvolver. Pelo menos quando se fala de um gosto autêntico, genuíno.

Em Floripa temos o John Bull Pub, uma das centrais do bom gosto terceirizado. Sim, aquela guitarra gigante da entrada é algo de ridículo, convenhamos, mas a proposta do bar é atender a rebeldes com aquelas jaquetas de couro bem cuidadas, aquele roqueiro cujas madeixas são as mesmas que ele usa durante o expediente como bancário ou advogado de empresa de telecomunicações. Mau gosto é o que tem este pessoal que vai em boate de pagode para “pegar as minas”, entende?

O John Bull Pub é diferente. Toca rock. Só nomes respeitáveis freqüentam o repertório das bandas que sobem ao palco do JB, como o apelidaram seus seguidores mais fervorosos. Rolling Stones, The Who, The Beatles, Dire Straits, The Police… Acho que Nirvana é um dos nomes mais recentes, Pearl Jam talvez.

Uma das bandas mais adoradas do JB é o Queen. Dia desses era aniversário de algum evento na vida, ou morte, do soberbo vocalista Freddie Mercury, e havia homenagens por toda a internet. Nerds aos montes louvaram o bigodinho mais adorado das arenas ao redor do mundo, e aquela jaqueta branca de baliza em desfile de Sete de Setembro estava em diversos cartuns com memes, de preferência espinafrando a nulidade bocejante que é o pobre do Justin Bieber.

E eu com isso? Então. Freddie Mercury era genial, um ícone, mas escorregou, artisticamente, no quiabo, em diversos momentos. Além disso, não é todo mundo que gosta de rock de arena. Nem mesmo os nerds. Tem música do Queen que é muito chata. A banda deixa de ser genial por isso? Não. Mas não é uma unanimidade.

Pulemos agora do bigodinho para os peitorais amplos. Vi, alguns dias atrás, a nova versão de Conan, O Bárbaro. Duas vezes. Convidei pessoas, e algumas torceram o nariz. “A versão do Arnold Schwarzenegger é definitiva”, “Ah, sem o Schwarzenegger não vai ter graça”.

Tipo, gente, pensa no que era Conan, O Bárbaro, nos anos oitenta. Se não me engano, foi o Dino de Laurentis quem produziu a bagaça. O cara produziu toda espécie de tosquice naquela época, e quase todos os filmes de aventura que eu devorei avidamente em minha tosca infância/adolescência, descobri depois, eram provenientes daquela produtora.

O que se vê, entretanto, é gente mais nova, vinte e poucos anos, às vezes nem isso, querendo emular esta experiência, querendo torcer o nariz para o que ocorre neste exato momento. Pensa de novo nos anos oitenta, e num austríaco, Mister Universo, espaço entre os dentes frontais suficiente para colocar dois molares-extra e a capacidade interpretativa que deve ter destruído os nervos de todos os diretores que o encontraram no início de carreira.

Arnold tinha um carisma monumental, entretanto, e não estou falando disso que vocês devem estar pensando, criaturas maliciosas. Ver o cara dando entrevista nos extras de Comando para Matar é muito revelador do carisma de que eu falava. E vocês continuam pensando bobagem, certo?

Tudo isto, entretanto, acontece depois. Em 1982, ninguém realmente tinha a certeza, que temos hoje, de que uma sessão de Conan, O Bárbaro, seria um programa übbermacho infalível. Assim, o que explica que as pessoas cheguem a uma sessão deste novo Conan de nariz torcido?

Justiça seja feita, este novo filme é mais fiel às raízes do herói cimério, a começar pelo biotipo do protagonista. Arnold é um escandinavo, este novo protagonista é moreno, e parece ter saído de uma propaganda de hidratante de cachos. Os efeitos modernos ajudam, e a seqüência de luta com os homens de areia, embora careça de roteiro, é belíssima.

Os cenários são reproduzidos com esmero. As paisagens são amplas, e os machos são machos; até as fêmeas possuem culhões expressivos. O vilão é malvado, muito malvado, e está doidão. A filha do vilão é despirocada, mas incrivelmente fiel ao pai, dedicada ao ponto de termos uma insinuação muito sólida de incesto. Os ajudantes do vilão não são fracos, e há até um ajudante do vilão para gerar aquele alívio cômico ao ser arremessado numa catapulta pelo cimério.

Do lado dos mocinhos, Conan tem seu Sexta-Feira, que não é lá muito metido a engraçado, embora pareça o vocalista do Inner Circle. Há um engraçadinho, sim, o covardão que abre fechaduras e “berra como uma mocinha” quando o monstrão aquático tenta esmagá-lo dentro de uma gaiola. A mocinha é linda, e seu feminismo desaba diante do carinho cimério, que se traduz em vociferações como “Woman! Come!”.

O filme é genial? Não, este novo Conan não é genial. É um pipocão. Quase duas horas de escapismo movido a ação ininterrupta e algumas frases de efeito, tudo embalado em um visual belíssimo gerado pelo que há de mais moderno em renderização digital. Apesar disso, não senti que este filme quisesse competir com o “original” de 1982. A história é outra, o enfoque é outro.

Voltando ao princípio, há razões para se gostar deste novo Conan. E há razões para não gostar. A maior parte delas, entretanto, não se relaciona com a filmagem de 1982. Há de se ter gosto próprio, e, então, gostar, ou não gostar. De Queen. De Depeche Mode. Do Conan de Jason Momoa. Ou não.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para A Tirania do Gosto

  1. mafra disse:

    jésus, me abana!
    a) não sabia que havia um novo “conan, o bárbaro”, muito menos que o filme anterior era “respeitado” por alguém… a única coisa que lembro dos dois conans estrelados pelo governador da califórnia é que foi ali que pela primeira vez que vi uma cena de sexo (tinha isso mesmo?).
    b) de fato, o john bull representa um pseudo bom gosto terrivelmente brega. aqueles posters todos, as bandas que repetem praticamente o mesmo repertório – como se houvesse uma cartilha com um número limitado de hits a serem executados. acho opressivo (pior que há muito em comum entre aquele lugar algumas casas de mpb, choro e etc).
    c) acho que vivemos nossa adolescência em uma época em que não era cool gostar de depeche mode… (eu, com o tempo, fui ficando cada vez mais fã dos new romantics… ou seja, de tudo que ainda hoje não é valorizado nem por muitos dos que amam dm – que costumam desprezar sua primeira fase)

    aliás, outra vez, um grande texto, seu gilvas.

    • gilvas disse:

      a. rolava sexo, sim. o jovem conan ficava em uma gaiola, e a mocinha era jogada lá dentro. o romeu cimeriano agia como um macaco diante da moçoila, e acho que rolava uma parada meio, digamos, “animal”. uma lembrança oitentista marcante foi a nudez frontal da ex-namorada do personagem de tom hanks em despedida de solteiro. cara, eu arregacei aquele vhs de tanta pausa, câmera lenta e retorno.

      b. muito bem apontado o conservadorismo de casas de mpb e samba. os repertórios são apenas os velhos cavalos de guerra, e ai de quem reclamar! “filisteu, não sabe o que é um clássico!”

      c. well, i just can’t enough! 🙂

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