Aldous Huxley: Contraponto

Entre a primeira e a segunda guerras mundiais, existiu uma era de mudanças que acabou por moldar o que entendemos hoje como o século XX. Na década de Vinte, quando Aldous Huxley escreveu Contraponto, já existia uma União Soviética, e ensaiavam-se os movimentos sindicais nos Estados Unidos e na Inglaterra. John dos Passos escreveu sobre este movimentos sindicais, e Steinbeck registrou a América do êxodo rural com rigor jornalístico. Faulkner foi esteticamente um romancista muito superior a Steinbeck, mas não é possível ler, nas linhas do primeiro, as agruras daquelas pessoas com tanta clareza.

O universo onde se desenrolam as diversas tramas paralelas de Contraponto é o de uma Inglaterra que já não pode fingir que ainda é o império. A Era Vitoriana ainda persiste nos corações britânicos, e sua classe alta agoniza num longo estertor.

Huxley representa esta transição usando de artifícios narrativos sutis. Boa parte do livro aproveita o estilo realista reinante no final do século XIX, mas Huxley o filtra por uma lente de cinismo. Suas descrições se aprofundam na psique de seus personagens com maior intensidade. Dickens, para citar um romancista-chave da Inglaterra novecentista, enuncia virtudes e defeitos de forma folhetinesca; Huxley toma os mesmos tipos, mas esmaecidos pela agonia do Império e aguçados pela sofisticação de seus vícios.

O escritor inglês experimenta menos do que em Sem Olhos em Gaza, onde os tempos se intercalam à distância de uma década ou mais, e os fatos se revelam pela superposição de camadas incompletas. Entretanto, ainda que não possua a exuberância estrutural daquele romance, Contraponto é sublime em cenas onde há uma certa simetria. O tema de uma passagem é revisitado na seguinte, como se uma situação passasse o bastão para a seguinte, como se fossem canções em seguida onde o tom do final de uma casasse com o do início da seguinte.

A era de Huxley é muito especial. A Física, dada como uma ciência resolvida no final do século XIX, ferve com as teorias da Relatividade e da Mecânica Quântica. Nas ruas, uma sociedade inteira se acomoda à inserção do automóvel em seu cotidiano. Os primeiros nacionalismos se exacerbam, e os comunistas já existem, de onde se antevê o primeiro bafo dos regimes ditatoriais que dominariam o miolo do século XX.

O século anterior ainda é presente na estética da morte de um dos personagens, assassinado por motivos ideológicos. A culpa ameaça permear as cenas, mimetizando o golpe de Raskolnikov nas velhas usurárias ou os crimes de um Dorian Gray já monstruoso por dentro. A violência do ato, entretanto, passa batida em meio às aspirações elevadas dos diversos pedantes em cena. Huxley encaixou, diz a orelha do livro, a si mesmo e a outros amigos no livro, alegação cuja veracidade não consigo comprovar. Isto pode explicar certas descrições poucos gloriosas, mas que, ainda assim, traem uma consideração por parte do escritor. O criador não consegue odiar nenhum de seus crápulas.

A espantosa era da engenharia e da ciência encontra seus participantes acabrunhados com  uma sociedade que começam a associar ao consumo e à produção em série. Seus tipos tentam sobreviver aos novos tempos com tenacidade. Eles lutam bravamente, e o livro termina sem que um golpe de misericórdia se faça manifestar. Eles retornam a seus cantos escuros, a seus pequenos atos sórdidos, cientes, em algum nível, de que seu mundo está morrendo.

Ensaia-se, nos derradeiros momentos, uma chama minúscula de redenção, uma resurreição infantil em contraponto, impossível evitar esta palavra numa resenha deste livro, ao crepúsculo de seu avô. Este, curiosamente, é um homem que escapa às convenções da sociedade ao seu redor, mas que não pode resistir à falência de seus órgãos internos, simbolizada por uma obstrução em seu piloro.

Contraponto é um livro inquieto, que te deixa com a sensação de que precisa ser lido de novo. Suas camadas são dispostas de tal sorte que, é possível, seu conteúdo se transfigure conforme o viés pelo qual o tomamos. Em suma, um grande livro, do tipo que interage com seu leitor e sobrevive a quase um século de existência, repleto de reflexões para os habitantes destes tempos de crise mundial.

Um trecho, da página 458 da edição brasileira, da fala de Spandrell:

(…)
Duma maneira abstrata sabes que a música existe, e que é bela; mas não partas daí para fingir, ao escutar Mozart, que estás num arrebatamento que não sentes. Se procedes assim, transformas-te num desses esnobes musicais idiotas que se encontram na casa de Lady Edward Tantamount. Incapazes de distinguir Bach de Wagner, babando-se de êxtase quando os violinos se fazem ouvir. O mesmo se passa exatamente com Deus. O mundo está cheio de esnobes religiosos perfeitamente ridículos. Pessoas que não estão vedadeiramente vivas, que nunca praticaram um ato verdadeiramente vital, que não têm relação viva com coisa alguma; criaturas que não têm o menor conhecimento pessoal ou prático do que é Deus. Mas andam pelas igrejas, rosnam suas orações, pervertem e destroem a totalidade de sua existência sem brilho, agindo de acordo com a vontade duma abstração arbitrariamente imaginada a que resolveram dar o nome de Deus.
(…)

Outros textos sobre Huxley:

Sem Olhos em Gaza

Admirável Mundo Novo

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Sobre gilvas

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Uma resposta para Aldous Huxley: Contraponto

  1. J. disse:

    Huxley era genial. Preciso ler mais dele.

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