Ian Ayres: Super Crunchers

O personagem de Will Ferrell em Mais Estranho do que a Ficção é o de um funcionário da Receita Federal. Ben Stiller contracena com Jennifer Aniston em Quero Ficar com Polly, e o personagem dele é um contador. Ainda que sejam comédias, ambos os filmes contam com protagonistas de um tipo considerado pouco glamuroso. Em tempos mais antigos, entretanto, estes entes da numerologia burocrática nem mesmo eram nomeados nos filmes. Jerry Lewis, com seus personagens abobalhados e encantadores justamente por serem abobalhados, pode ter encarnado, em nossa inconsciência, diversos contadores. Tanto fazia, desde que ele subsistisse de alguma forma na ficção e continuasse a fornecer combustível para nossas gargalhadas.

Parênteses: Entrei no Google para saber quais das consoantes eram dobradas no nome da atriz que interpretava Rachel no seriado Friends, e que agora continua interpretando a mesma personagem em dezenas de comédias românticas e dramas que não funcionam. Curiosamente, as consoantes só dobram uma vez. Fecha parênteses.

Super Crunchers é um livro de aeroporto que não vai sobreviver aos tempos vindouros. Logo será esquecido em alguma biblioteca de referência, de preferência em formato eletrônico. A ironia suprema, inclusive, seria armazenarem este livro em formato de planilha do Excel em lugar do tradicional pdf.

O livro sofre do mal de todo artefato que traduz a era em que foi escrito, que é, a saber, ficar preso a ela. As modas mais ferozes são as que pior envelhecem, e o guarda-roupa das vanguardas é o que mais gira. Ian Ayres fala de uma era em que temos (a) poder computacional, (b) espaço virtualmente infinito em disco, e (c) dados sendo carregados em formato digital para praticamente qualquer atividade humana.

A primeira parte do livro fala sobre os triunfos que o tratamento de dados brutos em quantidade adequada alcançou sobre a experiência intuitiva de especialistas. Esta introdução nos leva até a base para estes triunfos, a estatística. Neste ponto, vale ressaltar a confusão tremenda que o ser humano médio faz entre probabilidade e estatística. Pinker fala sobre a terrível confusão que o ser humano faz entre estes conceitos e a simples percepção de freqüência de um dado evento. É bom ler Super Crunchers com estes conceitos em mente.

Depois disso, Ayres discorre sobre o uso das técnicas dos “mastigadores de números” em áreas diversas, que abrangem enologia, medicina, direito, negociação de automóveis, empréstimos, concessões de condicionais a presos perigosos, educação de infantes, avaliação do sucesso de um blockbuster ou de um livro para as massas, entre outros. Os impactos nos egos dos especialistas são avaliados em paralelo a cada assunto, assim como as implicações éticas da tomada de decisão baseada massivamente em dados.

O leitor pode esperar, ao final da leitura, ter muito assunto para discutir no balcão do boteco ao final do expediente. Funciona especialmente bem para contadores, que podem extrair algum glamour do texto, e salpicar sobre suas próprias vidas, de modo a torná-las mais apetitosas aos olhos do sexo oposto. Ayres diz, no livro, que isto não funciona, mas não custa tentar, certo?

Minha profissão envolve tomada de decisões, e muitas delas são bastante arriscadas. Raramente tenho a informação necessária para apoiar minhas decisões. Em parte porque não criei uma estrutura adequada para capturar os dados necessários, em parte porque meu universo de atuação não apresenta situações repetitivas o suficiente para criar um campo amostral consistente e utilizável. Por outro lado, em corporações maiores e no governo, por exemplo, há eventos que borbotam aos milhões e há dados registrados em bancos nababescos.

O que quero dizer é que a super-análise, como o autor se refere ao tratamento estatístico de bases de dados, é aplicável a alguns casos, e não a outros. Isto não fica claro no livro, e nem faria sentido se ficasse; é um livro de propaganda, de certa forma, e foca no que está tentando vender. Por esta razão, Ayres deixa de lado alguns dos inconvenientes que análises estatísticas e roteiros padronizados baseados em aplicação de ensaios randômicos fazem emergir.

Primeiro, a super-análise conduz ao máximo de eficiência, e não discordarei disso. O autor comenta, em certa passagem, que as combinações genéticas dos seres humanos tendem a uma linha central, a uma média, a uma, perdoe-me a grosseria, “mediocridade”. É isto que se observa em uma competição de judô, por exemplo. Décadas de observações em competições levaram os treinadores dos atletas a buscar um leque reduzido de técnicas que “funcionam”, e o judô praticado nos ginásios dos jogos estaduais, nacionais, continentais e mundiais se reduziu a um arremedo de arte marcial. É agora um subconjunto de movimentos que “funcionam”. Perdeu-se toda a arte que havia em “arte marcial”, e focou-se na funcionalidade. Acredite, o mundo ficou mais pobre quando o judô passou a ser um esporte.

Segundo, o padrão de educação conhecido como ID pode ser muito eficiente. E é. Inclusive, não tenho lá muita simpatia por métodos hippies de educação tipo Waldorf, pois eles esquecem que o mundo, o que vai receber estas crianças, continua sendo um monstrengo que não muda desde a Revolução Industrial. Ford e Taylor continuam apitando sobre a linha de produção, e não importa quantas vezes o caçador de raposas Roger Waters cacareje que “nós não precisamos de sua educação”, o fato é que ainda estamos sentados em linhas de produção. Neste ponto eu fico confuso. A arte marcial que pratico precogniza que o aprendiz se encaixe em um quadrado inicialmente, para apreender os conceitos por repetição e imitação, para então, depois da conformação, libertar-se das arestas do quadrado inicialmente proposto. Assim, uma criança treinada em ID poderia ter uma base poderosa inicialmente, e depois aderir às holísticas flexíveis que lhe apetecessem. Que dilema.

Terceiro, os tais roteiros padronizados e altamente eficientes, esquece-se o nosso autor, são o terror de qualquer ser humano minimamente informado que já ligou para um call-center precisando de apoio ou correção em algum serviço. Usuários de qualquer serviço prestado por operadoras de telecomunicações devem estar agora se arrepiando em desespero pela lembrança das horas que passaram tentando dialogar com atendentes gerundistas para resolver problemas de seus celulares. Ou seja, estatísticas podem errar seu alvo, e normalmente a culpa está nos seres humanos que desenvolveram e definiram suas premissas.

Ao cabo, Super Crunchers é um livro interessante para quem ansiava por um outro enfoque ao assunto proposto em Freakonomics, embora eu considere este último mais intrigante em suas discussões éticas.

Segue um trecho do capítulo que trata sobre medicina, que envolve Joseph Britto, um médico de UTI e desenvolvedor do sistema de apoio ao diagnóstico Isabel:

(…)
Quando Britto começou a aprender como pilotar um avião em 1999, ficou abismado ao descobrir como os pilotos aceitavam facilmente softwares de apoio. “Perguntei a meu instrutor de vôo como ele via essa diferença”, conta Britto, “Ele me falou: ‘É muito simples, Joseph. Ao contrário dos pilotos, os médicos não caem junto com seus aviões’.”
(…)

Aqui vale lembrar de uma das minhas anedotas prediletas sobre médicos. “Sabe a diferença entre um médico e um agrônomo? Então, os erros de um agrônomo a terra mostra; os de um médico a terra esconde”. Excelente para um dia como hoje, hein?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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