Planeta Terra 2011: White Lies

O sol ainda raiava quando o White Lies adentrou o palco principal do Planeta Terra. O trio original normalmente é acrescido de um tecladista, que estava presente, e recebeu o reforço de mais um guitarrista. A adição do guitarrista provavelmente foi planejada para encarar um platéia maior do que aquelas a que a banda inglesa está acostumada.

A apresentação começou com Farewell to The Fairground, e partiu intercalando canções do primeiro e do segundo discos. A segunda, se me lembro direito, foi Strangers, e, logo depois, To Lose My Life. Tendo apenas uma hora de apresentação, poucos asseclas na platéia e o sol ainda na cara, a opção da banda foi correta: Tocar as canções mais rápidas e conhecidas, em detrimento de outras mais lentas e ainda mais trevosas do que os hits underground da banda.

Eu já havia assistido a algumas performances do White Lies em programas da televisão inglesa, e já estava prevendo que a voz do nanico Harry McVeigh não ia segurar direito a peteca ao vivo. Foi o que aconteceu. Devido à densidade emocional das composições da banda, faz-se essencial uma interpretação poderosa, o que pode ser solucionado, em parte, pela presença de vocais de apoio. Tirar algumas ocupações do vocalista é outra estratégia que costuma ajudar.

Todavia, o guitarrista convidado não mostrou a que veio. Sua performance foi apagada. Várias passagens das soturnas canções do White Lies precisariam de mais densidade guitarrística, um peso que faltou, e que poderia ser um dos ingredientes para fazer a apresentação pegar fogo.

O baixista, como apontou um colega de excursão, demonstrava preguiça, parecia não querer estar ali naquele momento. O único que realmente se empolgou foi o baterista Jack Lawrence-Brown, sem dúvida o melhor, tecnicamente falando, instrumentista da banda. Ele espancou o seu kit de bateria sem clemência, e quase se desmanchou em suor.

McVeigh, por seu turno, deve ter sido orientado por seu empresário a interagir com a quente platéia brasileira, e resolveu expor seu lado Jon Bon Jovi, exortando a platéia a demonstrar maior intensidade. O ato soou dicotômico; de um lado, as canções sombrias cantadas por um cara de camisa fechada até o último botão, e, do outro, McVeigh sorrindo para levantar a galera num dia ensolarado.

Estou resmungando, eu sei. Adorei cada momento da apresentação. Qualquer fã adoraria. Conheço todas as canções, que são excelentes, e consigo diferenciar umas das outras, algo que não é muito fácil de fazer. Lembro de uma das meninas da platéia, apenas esperando os Strokes como noventa por cento dos presentes, perguntar “Ei, eles já não tocaram esta?” ao começo de uma nova canção do White Lies. Cantei estrofes e refrões, em esgoelei quase tanto quanto McVeigh, tanto que voltei para Floripa com um timbre de voz muito próximo daquele de Don Corleone.

Tenho algumas teorias para os caras serem tão travados no palco, e boa parte delas se baseia na experiência de assistir, em DVD, um dos primeiros shows do New Order. A voz do Bernard Sumners era desafinada e estridente, e a massa sonora dos instrumentos não conseguia, ao vivo, reproduzir o encanto de certas passagens de estúdio.

O White Lies é assim, uma inversão daquele clichê da banda que tem apresentações incendiárias, mas que não consegue registrá-las em estúdio. Os Smiths, de certa forma, na minha opinião, sofriam deste problema. Trata-se de uma limitação tanto técnica quanto psicológica, eu suspeito. Lembrei também do show do Placebo em Floripa, mas ali o problema era de ordem técnica; a banda simplesmente não conseguia injetar vida nas suas recriações de estúdio.

Tenho esperança, claro. Um dia vou ver um show realmente eletrizante do White Lies. Provavelmente no palco indie, um espaço que eles provavelmente conseguiriam preencher com sua poderosa introspecção. Enquanto isso, eles vão acumulando um repertório fodão.

***
Segundo o site Terra, organizador do evento, “White Lies empolga público em SP“. A Folha, de onde peguei a imagem que ilustra este texto, diz que “White Lies conquista público com rock gelado no Planeta Terra“. Vai saber.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Música e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s