Planeta Terra 2011: A Raspa do Tacho

A missão no Planeta Terra foi cumprida com louvor. Consegui bons lugares para assistir a Goldfrapp e White Lies, e ainda consegui dar uma volta em alguns brinquedos do Playcenter. A companhia da Maricota, devo ressaltar, foi excelente, uma ótima parceria para empreitadas deste e de outros naipes.

Depois da péssima organização do Just a Fest, que só foi salvo porque sua atração principal foi o magnífico show da banda mais fodona do mundo, confesso que estava bastante receoso de encarar a intensa camelagem que é assistir a bandas gringas em terra brasilis.

O Festival Planeta Terra, entretanto, superou diversas das minhas expectativas. O espaço era adequado, permitindo que as pessoas circulassem à vontade. Havia sombra para quem quisesse descansar, e espaços de chill-out, que eram acessíveis ainda que fosse necessário, em alguns momentos, disputar um espaço para se esticar. O acesso ao rango e à bebida foi excelente. Havia filas, claro, mas era só caminhar um pouco e se encontrava outro ponto vendendo as mesmas coisas, e com menos fila. Exceção para a barraca da pipoca, que gerou situações surreais de demora, sem falar nas patuscadas dos operadores.

As filas para os brinquedos estavam de tamanho salutar, e a presença da discotecagem especial no carrinho de choque foi um ponto memorável do dia. Nunca mais anda no Polvo, aquela farsa: parece um brinquedo inocente, mas consegue ser mais tenebroso do que o barco viking. Ah, andar na montanha-russa depois da meia-noite é uma experiência que todo medroso deveria conhecer.

Os palcos, para quem não estava interessado nos headliners, estava extremamente acessível. Vi Alisson Goldfrapp a menos de dez metros de mim, e o mesmo valendo para o Bombay Bicycle Club. Estes, inclusive, eu vi andando no carrinho de choque durante a apresentação do Groove Armada.

Embora eu não tenha cancha para escrever uma resenha boa do Bombay Bicycle Club, eu preciso dizer que eles foram a banda mais empolgada da noite. Manja a performance catártica do Johnny Greenwood, o guitarrista esquisitão do Radiohead? Então, era como quatro Johnny Greenwood se debatessem pelo palco, tamanha a energia dos moleques. O instrumental foi soberbo, com a reprodução de diversas sonoridades sutis dos álbuns. As guitarras foram tocadas com criatividade ímpar, e intensidade idem. Foi uma injustiça que os mesmos tenham sido escalados para tocar no mesmo horário do headliner do festival. Eles agradeceram, inclusive, quem ficou ali e deixou de ver os Strokes. Eles são sutis, mas nem tanto, pois nenhum deles foi ver, depois, os rapazes de Nova Iorque.

Por falar em Nova Iorque, alguém me explica qual o sentido de existir uma banda como Interpol? Para começar, não precisava ter duas bandas do mesmo naipe, e eu realmente não consigo enxergar distinção entre The Killers e Interpol. Ambas são americanas, ambas são movidas a caras e bocas, ambas diluem algo que eles convencionaram ser um som inspirado em Joy Division. Interpol fez um show com tudo bem tocado, apesar dos vocais qualquer nota, mas aquele monte de batidinha disco com baixo pseudo-tenebroso me deu uma baita preguiça.

E preguiça poderia ser uma palavra para tatuar nas costas do Liam Galagher. Seu Beady Eye entrou no palco com algo que parecia energia, mas logo a maionese desandou, e Liam teve de colocar as cartas na mesa, desnudando seu blefe fuleiro. Encadeou três baladas sem graça em seqüência, e cantou com um prendedor de roupa no nariz. Se aquilo era voz, gente, vou ter de rever meus conceitos. A banda é pífia, um arremedo do tipo que serve para tocar naqueles bares de beira de estrada no deserto em filme americano. Alguém tinha de me explicar porque a banda tem duas guitarras se ambas fazem o mesmo nhec-nhec o tempo todo, sendo tocadas como violão de moleque que não sabe fazer pestana. Para fechar, um tecladinho de churrascaria embala tudo para levar. De volta para a Inglaterra, onde os resmungos pseudo-classe-operária de Liam ainda são levados a sério.

Vi um trecho do The Name, e não tenho opinião. Sei lá, indie nacional sem muito destaque. Pelo menos não é um embuste como Garotas Suecas, que só ganha projeção por convidar o novo Mussum que o Renato Aragão arranjou para fechar sua versão loser dos Trapalhões. Patético, minha gente, patético. Vi um trecho de Criolo, e confirmei meu diagnóstico: Não Existe Amor em SP é um excelente sucedâneo brazuca para Massive Attack, mas o maior parte do resto carece de personalidade, precisa descolar do exílio voluntário no gueto.

No quesito sustentabilidade, a palavrinha que toda corporação adorar emporcalhar, o Planeta Terra ainda ficou devendo. O rango tinha muito papel e muito derivado de animais. Muito queijo e muito leite, muito plástico e muito lixo. Pode melhorar. O acesso aos banheiros estava tranqüilo. Me arrependi um pouquinho de não ter levado minha câmera, pois havia bom espaço para se esgueirar até levar o foco ao palco.

Certo, eu não deveria ter desprezado tanto os Strokes, mas o fato é que só conheço uma música deles, e estava com uma preguiça monumental ali por uma da manhã. Não estava com paciência para aturar empurração, então fui dar uma olhada no Live PA do Groove Armada. Sei lá qual é a graça daquilo. Os baixos eram bons, realocavam os órgãos no aparelho digestivo, algumas melodias eram gostosas, mas nada daquilo se fixou na minha cabeça. E os operadores do maquinário, que preguiça. Pareciam ciclistas inexperientes, daqueles que têm medo de levantar uma mão do guidão, por receio de cair. Por via das dúvidas, me empirulitei para mais uma volta no carrinho de choque.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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