Graham Greene: Nosso Homem em Havana

Graham Greene foi meu companheiro fiel na viagem ao Planeta Terra. Devido a alguns contratempos, as duzentas e poucas páginas de Nosso Homem em Havana não foram suficientes para todo o trajeto. Cheguei a reler alguns trechos depois de ter acabado o livro em algum lugar entre Curitiba e Joinville.

Difícil destacar algo específico neste volume. Greene é um exemplo da anedótica figura do britânico previsível e recheado de espirituosidade. Nosso Homem em Havana tem o humor afiado de Monsenhor Quixote, as tramas de espionagem de O Fator Humano, e explora as desventuras de um homem fora de seu elemento, como pudemos observar em O Americano Tranqüilo, além de suas interações políticas desastradas.

Se, então, é apenas mais do mesmo, porque ler este livro? Ora, pipocas, porque é excelente. Greene me encanta com suas descrições rápidas e certeiras de personagens, suas narrativas que constróem reviravoltas surpreendentes dentro de diálogos despretensiosos e lépidos. Dá gosto ser enganado pelos olés de Greene.

Agrada-me também suas conclusões. Nosso Homem em Havana acaba de uma forma que permite dezenas de nuances da nossa interpretação. Pode parecer um final feliz, mas os resmungos do protagonista nos fazem logo desdenhar de sua própria escapada a um fim realmente doloroso. A escapada, enfim, perde seu brilho porque se fundamenta em pilhas de destroços e desenganos. Se existe salvação, ela brota da incompetência. Deste veio é que Greene extrai suas situações engraçadas em chistes delicados.

Greene é leve sem ser bobo, é relevante sem ser pesado.

Um trecho das página 134/135 da edição brasileira:

(…)
Depois disso, ela começou a interessar-se por uma figura mais romântica da imaginação de Wormold: o piloto da companhia de aviação cubana. Trabalhava com entusiasmo para que a ficha referente a ele fosse a mais completa possível, querendo saber, sobre a sua pessoa, os pormenores mais íntimos. Raul Domínguez era, sem dúvida, uma personagem patética. Perdera a mulher durante um massacre, na Guerra Civil Espanhola, e desiludira-se de ambos os lados, principalmente quanto ao que se referia a seus amigos comunistas. Quanto mais Beatrice lhe perguntava a respeito, tanto mais a personagem se desenvolvia, e tanto mais Beatrice se tornava ansiosa por conhecê-lo. Às vezes, Wormold sentia uma ponta de ciúmes de Raul, e procurava escurecer o quadro que ele próprio pintara:
– Ele bebe uma garrafa de uísque por dia.
– É para fugir à solidão e às recordações! – respondeu Beatrice. – O senhor não procura nunca um motivo de fuga?
(…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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