Marguerite Yourcenar: Golpe de Misericórdia

Golpe de Misericórdia é um romance curto de Marguerite Yourcenar, mas que, conforme se pode esperar desta escritora, nos arrebata de forma gloriosa. Este livro é um volume equivalente, em tamanho, a Alexis, mas o tratamento que a escritora dá à narrativa se aproxima mais da abordagem de rigor histórico que há em A Obra em Negro.

A época retratada aqui é o final da primeira guerra mundial, e o espaço é um cadinho étnico nas regiões fronteiriças da Rússia. Os comunistas ainda são uma novidade curiosa, e as rivalidades ainda são as dos reinos que se desenharão em nações um pouco mais tarde. O motor da narrativa é uma história de amor que, como tudo o mais naqueles, não poderia dar certo.

A primeira guerra mundial é uma encruzilhada tenebrosa, uma era onde as antigas estratégias de guerra desabavam de encontro a novas armas, como a metralhadora de repetição, os gases tóxicos e os aviões. Neste cenário, os soldados e seus comandantes ainda usavam as táticas dos romanos, e corpos dilacerados tiveram de ser queimados aos milhares até que os generais finalmente concluíssem que as coisas teriam de mudar.

O romance entre Sofia e Éric é contado por Éric. A aridez daqueles tempos faz com que esta história de amor não tenha um beijo sequer, e, não, não há sexo. Pelo menos não entre os protagonistas. O sexo é sujo como as feridas de uma guerra que não conhecia penicilina. Ele só ocorre para saciar mecanicamente uma necessidade física ou como arma para tentar inflamar um amor em outrem. E não funciona, claro.

Sofia e Éric são um par óbvio pelas circunstâncias, e poderiam protagonizar uma daquelas bobagens deliciosas da Sessão da Tarde. Em tempos bicudos, todavia, só lhes resta encenar um Shakespeare azedo de poesia seca.

Segue um trecho, da página 68:

(…) Ela veio comigo ao corredor. Ali, uma lamparina inofensiva continuava a arder aos pés de uma imagem de santo da tia Prascóvia. Sofia respirava opressamente; seu rosto estava radiosamente pálido, prova de que me compreendera. Vivi com Sofia momentos ainda mais trágicos, mas nenhum mais solene, nem mais próximo de uma troca de juramentos. Sua hora em minha vida foi essa. Ela ergueu as mãos manchadas pela ferrugem do corrimão onde nos apoiáramos um minuto antes, e atirou-se ao meu peito como se tivesse acabado de ser ferida. (…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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