Alphaville: Catching Rays On Giant

Passados quase trinta anos desde a época áurea do Alphaville, é a ironia quem pajeia Marian Gold em seu caminho. O rapazote ambíguo de dentes tortos, tão bem representado por seu codinome pomposo e andrógino, agora é um homem crescido. E barbudo. Ele já não se apresenta maquiado. “A pele já não aceita certas idiossincracias, a idade que nos faz perder algumas vergonhas nos acrescenta outras.”, ele diz enquanto caminha pela sala apertada da sua gravadora em Düsseldorf.

Rechear o álbum de canções para este retorno teria sido difícil? “Temo que não. Tivemos vários anos, várias canções ficaram flutuando desde o meio dos anos oitenta, e sabíamos muito bem o que queríamos.”. Catching Rays on Giant é um resgate honesto do technopop da banda alemã. O disco orbita clássicos como Big In Japan, fabulosa referência.

Começa mal, é importante ressaltar. Song For No One sofre de assobios, moléstia que acometeu outras canções de sucesso no passado, como Wind Of Change e Patience. Curiosamente, são também canções constrangedoras, apesar de seu êxito nas paradas. Por via das dúvidas, pule a primeira faixa; você vai me agradecer, mesmo sem saber a razão. Acredite.

Até porque tu desembocas na principal música de trabalho deste álbum, a hiperbólica e grudenta I Die For You Today. O vídeo desta faixa evoca cenas de ficção científica protagonizadas por Marian. Há também uma versão acústica no YouTube, que mostra que a canção funciona bem mesmo sem os adereços eletrônicos.

Como o A-ha, o Alphaville se reinventa com instrumentos mais modernos, mas com uma sonoridade que remete a uma era que vem retornando como farsa. Aliás, é uma pena que o revival oitentista preze mais pela paródia do que pela renovação da visibilidade de grandes compositores pop como Marian.

Imagina agora uma festinha rolando em um filme de sessão da tarde. Com Andrew McCarthy, Rob Lowe, talvez o Robert Downey Jr. Isso! No meio dos televisores de tubo pendurados e dos cabelos cheios de gel com purpurina, lá estará o Alphaville tocando a dançante End of The World e a deliciosa The Things I Didn’t Do. Enquanto você dança, Marian promete ser seu escravo, alimentar seu peixinho de aquário e colocar flores na tua sepultura. Quer amor maior do que este?

Festinha oitentista que se preze precisa daquele momento de dançar agarradinho, certo? Certo! Marian solta duas baladas em seguida, cheia de sentimentos elevados e decepções a destruição que a humanidade vem trazendo para o mundo, enquanto você tenta desajeitadamente invadir as regiões proibidas da superfície daquela menina de cabelo estufado e cara branca que você segue com os olhos em todas as aulas.

Gatinha conquistada, o lance é partir para a melhor parte do álbum. Sim, ele fica melhor ainda! Quatro canções, começando com a vertiginosa Call Me. A letra tem trechos como “I’ve never been in love, just read some books about it”. Trivial, mas perfeito.

Gravitation Breakdown é mais tensa, exercita um som futuro como se a banda ainda estivesse lá, naquele passado reconstituído. As dancinhas tensas, as ancas a balançar em movimentos marciais enquanto o vocalista comanda a turba em meio ao gelo seco. O vocoder é sintomático. As guitarras eletronicamente roucas da ponte, idem.

A batidinha relaxada de Carry Your Flag poderia prenunciar um reggae aguado do UB40. Seus violões, entretanto, embalando um Marian épico, mão ao peito, abraçando as multidões enquanto voa por cima da cidade, escudado por um céu glorioso. Impossível não se sentir confiante. Você segura a mão dela e de alguém mais a teu lado, e todos estão entoando os “ôôô” no final, todos juntos, quase uma única voz.

Call Me Down fecha este ciclo como a única faixa em que os vocais principais não são de Marian; Martin Lister, membro da banda, teve a honra. O disco desacelera, deixa os espaços abertos, adentra novamente o espaço urbano e noturno de tunéis e neons e casos amorosos dúbios em apartamentos pós-retrô.

O disco acaba aqui para você. A menina está abraçada contigo, e masca um chiclete enquanto olha para o chão à frente, caminhando e te encantando. O clube está fechando, e você tem certeza de que nada no mundo pode dar errado. Cada dia será uma nota percurtida numa superfície eletrônica polida e perfeita aos olhos mortais.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para Alphaville: Catching Rays On Giant

  1. Luke Alencar disse:

    Baixei o álbum depois de ler *-* Gente, perfeito! Depois do Forever Young, o melhor deles *-*

  2. Leandro POA disse:

    Crítica perfeito, meu amigo… ouvi o CD depois da crítica, foi ela que me motivou. A análise é primorosa…

    • gilvas disse:

      obrigado! motivar as pessoas a encontrar algo em um artefato cultural inicialmente sem referências é uma das mnhas motivações principais ao manter o blog. abraço!

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