Michel Leclerc: Le Nom des Gens

“Homem certinho se apaixona por mocinha tresloucada, e muda sua vida por completo” poderia ser o mote de qualquer comédia romântica de róliude. Doce Novembro é o exemplar que vem à minha mente quando penso nesta tradição desinteressante e recheada de clichês. Le Nom des Gens é construído sobre esta mesma premissa banal, embora os resultados sejam totalmente distintos.

O certinho da história é Arthur Martin. Seu nome é extremamente banal na França. Ele vive às voltas com palmípedes mortos e avisos sobre epidemias. A louquinha é Baya Benmahmoud, que se orgulha de ser a única pessoa do mundo com este nome. O título do filme é baseado nestes extremos dos nomes, e não precisava da tradução idiota “Os Nomes do Amor”, expediente semelhante ao adotado pelos distribuidores brasileiros com Goldfish Memories. Se serve de consolo, a versão americana também tem um título idiota, equivalente ao brasileiro.

As sinopses locais vendem o filme a partir da principal atividade da ativista Baya, que é dormir com seus inimigos políticos, os fascistas, para convertê-los ao pensamento hippie/esquerdista que ela prega. Vender um filme pela promessa de sexo é um costume tedioso, e afasta espectadores mais alinhados às boas idéias deste filme.

Que é exagerado, alerto. Um ar de fábula circula pelo roteiro, que raras vezes busca ser verossímil. Le Nom des Gens procura divertir sem causar aquela ressaca que os filmes imbecis, noventa e cinco por cento da produção da róliude atual, produzem em qualquer ser vagamente pensante. A premissa do sexo como conversão é furada, assim como a divertida cena em que Baya esquece de colocar a roupa ao sair de casa. No entanto, de que outra forma criar a cena em que ela é vista por Arthur caminhando nua diante do mercado em qual ela o deixou à espera na fila? A cena do ônibus, quando ela finalmente percebe estar nua, é memorável pela tentativa, por parte dela, de fingir que está tudo bem em não portar roupas.

O filme é encantador quando mostra os bloqueios de Arthur, bem claros na forma como ele vê o encontro de seus pais, nerds fechadões como o pai de Michael J. Fox em De Volta para o Futuro. As constantes intervenções do jovem Arthur no presente do Arthur adulto, e, em especial, a cena em que o Arthur adolescente conversa com a Baya criança num banco de praça, bem, elas são encantadoras. Perdão pela repetição do adjetivo.

O diretor preza por não mostrar. Sua narrativa visual privilegia os vazios dos acontecimentos. A câmera, principalmente em momentos polêmicos, como o episódio de pedofilia, foca nas bordas da cena, e o espectador lê as ondas causadas no lago, adivinhando a pedra que as causou. Não se trata de algo novo, mas Michel Leclerc faz uso do conceito com economia e elegância.

A conexão entre Arthur e Baya possui algo de freudiano. Baya se conecta à mãe de Arthur por traumas equivalentes, que levam as respectivas famílias a procedimentar consistentes auto-censuras, principalmente aos televisores, que cismam de focar nos assuntos que as atormentam. Esta retenção emocional é o que vaza na parte final do filme, num crescente que Leclerc conduz com eficácia.

Le Nom des Gens é uma surpresa agradável, um inesperado presente de Natal.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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