Emilie Simon: The Big Machine

Aparentemente, a encantadora cantora/instrumentista/compositora/coisa-mais-fofa-do-mundo francesa Emilie Simon cansou da sua terra natal. Resolveu atravessar o Oceano Atlântico, indo parar na Grande Maçã, a fértil porém assustadora Terra dos Sonhos a que se refere o título de seu álbum.

Os fãs de longa data vão estranhar. As tessituras eletrônicas continuam sendo o motor do trabalho de Simon, e ela continua competente em suas composições e arranjos. A novidade é uma urgência, um imediatismo que não havia nos discos anteriores. A intenção parece ser a de derrubar a porta em Nova Iorque, chegar arrasando.

Os vocais acompanham a estratégia agressiva. Simon não soa mais como aquela garotinha timidamente sensual; ela encarna agora um mulherão, e sua voz está à altura da tarefa. Deve ter custado dezenas de horas em aulas de canto.

As letras são todas em inglês, o que tira um pouco do charme das composições da moça. Há alguns trechos em francês, mas o caminho inverso. O idioma nativo da moça é inserido como citação, como se ela quisesse soar como alguém “de casa”. As canções falam, quase integralmente, das experiências de Simon em sua nova casa. Chinatown é tensa, uma espécie de relato de uma aventura num bairro pouco amistoso.

Ballad of The Big Machine fala de Simon sendo mastigada pela nova cidade. Os ruídos de fundo remetem a engrenagens, e dá para imaginá-la cantando num palco de cartola, com dançarinos e tudo mais. Esta canção é a mais longa do álbum, e, de certa forma, o conceitua.

Fãs antigos estranharão o vocal de The Cycle. Deve ser muito complicado reproduzir todos aqueles floreios ao vivo. A batida é reminiscente de alguma canção que poderia estar na trilha do clássico cafona oitentista Flashdance. Esta abordagem foi tentada pelo Goldfrapp em seu último disco com resultados duvidosos; Simon mostra maior inventividade, recriando o clima electro-oitentista com maior expertise em composição.

The Devil At My Door é irônica. Uma francesa apresentando um tema de cores oriundas de New Orleans? Caspita! Simon brilha de forma convencional em meio a metais, brincando de ser cajun e também com o que alguém poderia fazer para alcançar o sucesso. Ela venderia a alma para vencer na América? Vai saber…

Rocket To The Moon corteja outra tradição norte-americana, a das Big Bands. Ao som de estalos, Simon canta para seu par, novamente num palco com dezenas de dançarinos. Soa legítimo e luxurioso.

A simpática The Way I See You apresenta uma base uma base eletrônica nababesca, com timbres instigantes. Simon canta para as alturas, secundada por um coral de aborígenes falsos de algum filme da Disney. Impossível não se deliciar.

This Is Your World fecha o disco como se fechasse um musical da Broadway. O coral está lá, respondendo às provocações da francesa enquanto ela, a garotinha, se move da Big Machine. Ela termina o disco em um grand finale diante da platéia. Uma fração de segundo depois das vozes pararem, enquanto a reverberação delas ainda se espalha como um alívio de tensão, uma fração de segundo antes das palmas, tomara que venham, explodirem. É assim que Simon termina seu disco. Será que esta guinada funcionou? O disco seguinte, que eu ainda não ouvi, tem letras em francês, mas ela ainda está vestida de crooner na capa. Vai saber…

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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