The Black Keys: El Camino

Todas as boas canções já foram gravadas? Conheço muita gente que não apenas acha que isto é verdade, estas pessoas consideram que as canções boas se esgotaram nos anos setenta. São pessoas ancoradas naquela era de cabelos longos, calças apertadas e peito cabeludo. “Algo tacanhos”, escapa-me, mas nego diante de todo e qualquer tribunal.

O segundo álbum do Black Keys compartilha desta convicção. Todas as canções são muito boas, e todas me deram a impressão que acomete conquistadores baratos mundo afora: “Eu te conheço de onde?”. A produção também remete ao eldorado do rock, aquela fase que provoca arrepios nos Woods e nos Stocks, carecas e barrigudos nesta era pós-niilista.

Talvez falte a testosterona, é notável, mas isto coaduna com a plena contemporaneidade da dupla. Vivemos em tempos bicudos, durante os quais os machos extravagantes de quarenta anos atrás não vingariam. Black Keys, embora resgate um certo espírito setentista, mantém uma atitude plenamente adequada à segunda década do século XXI.

A abertura é emblemática: riff contagioso, vocal empolgado, drive acelerado, teclados adoçando a mistura junto com os vocais de apoio no refrão. Não há como resistir. A temática é de dor-de-cotovelo, mas quem se importa se está em uma festa? A palavra de ordem é aproveitar.

O disco segue pelas ruas noturnas em um Dart bege com capa preta e oito canecos, bração para fora, andando na lenta só para curtir melhor as subidas e descidas dos pistões.

A gravação é do tipo que deixaria Lenny Kravitz babando. Os baixos são cremosos, as baterias soam como saíssem de um porão recheado de garrafas de bebidas alcoólicas vintage de que ninguém havia ouvido falar até então. As guitarras trabalham na zona dos timbres perfeitos, não há pedais escrotos. Todos os teclados possuem as laterais em madeira. Às vezes é aglomerado, mas é aglomerado coberto daquela fórmica com estampa de jacarandá tão amada nos anos setenta.

Não ouse fazer uma festa sem tocar Gold On The Ceiling. É divertida demais.

Só não viaje na comparação besta que fizeram com Little Black Submarines. Tudo bem que a canção começa com uns timbres de teclados muito chupados do clássico do Led Zeppelin que azucrina rodinhas de violão há décadas. Os dedilhados também são descarados parecidos, mas a parte barulhenta fala um idioma totalmente distinto. Enquanto o Zep ensaiava um flerte com o progressivismo em voga na época, o Black Keys apenas está fazendo festa, apesar da letra chorosa.

Dado que é um álbum bem equilibrado, não há especificamente canções a destacar, mas uma menção deve ser feita à sensual Sister.

Este disco já encabeça diversas listas de melhores de 2011 e é um dos meus discos de verão em 2012, algo que realmente deve orgulhar o Black Keys por ser uma banda de excelentes influências. Entretanto, eu não acharia muito justo que eles subissem ao palco para receber os prêmios. A menos, claro, que levassem suas heróicas influências, talvez menos em carne do que em osso atualmente, para receber os louros pela co-autoria de todas as canções de El Camino.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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