Cícero: Canções de Apartamento

O fim do Los Hermanos deixou uma multidão de viúvas indies e filhotes bastardos. Varrendo as cinzas, algumas questões surgem salientes conforme as cerdas da vassoura, de palha, lambem o chão revestido de tacos de madeira.

Há bandas/artistas que parecem agora usar determinados discos da finada banda carioca como ponto de partida. Apanhador Só pega a ponta deixada em Bloco do Eu Sozinho. Este rapaz, Cícero, parece partir do Quatro para desenhar esta epopéia entre quatro paredes anônimas de uma habitação pessoal empilhada com outras em um bairro de cidade grande.

Acusar estes artistas de seguir Los Hermanos é uma bobagem, entretanto. A trupe de Camelo e Amarante  ensinou toda uma geração a gostar de um determinado tipo de som, um híbrido de MPB e rock indie que estava impregnado nos dias, apenas esperando quem lhe desse forma. Eles foram os artífices iniciais, a referência para os que seguiram, sem dúvida. Seu papel pode ser visto como equivalente ao dos Smiths/New Order na cena de Manchester, bandas que aplainaram o terreno para que as hordas indies viessem a pavimentá-lo, e, em certo momento, torná-lo tedioso, o que é outra história.

Voltemos ao Cícero. Um artesão que se põe anônimo em um apartamento. Cego às ruas, embora possa se referir a elas de forma esporádica e metafórica, Cícero exercita uma poesia delicada de quem vive em uma estufa recheada de referências. Os livros são óbvios nas composições, plenas dos problemas que talvez só façam sentido para a classe-média.

Neste ponto é que Cícero se apresenta como um herdeiro distante da bossa-nova. Os violões soam discretamente assim, seu vocal vai para dentro quase sempre, às vezes escapa.

A dinâmica das canções, entretanto, remete aos inícios silenciosos com finais melancolicamente épicos de um Sigur Ros, na falta de exemplo geograficamente mais próximo. A variedade de instrumentos bonachões, como pianos e acordeões, remete ao cinema francês atemporal ou ainda ao cinema italiano de tempos áureos.

Em suma, nada de copos de uísque e papos cosmopolitas de embaixadores ou slow-jazz de inflexões Carmem Miranda. Cícero segue a cartilha do perdedor quieto, que espalha suas reflexões particulares contra as paredes daquele apartamento anônimo de que eu falei ali em cima.

Soa como um pretendente a sambista, do tipo que carrega o violão por toda a cidade, sem atacar suas cordas por um instante sequer, por timidez. Ele chega em casa, rouco de cantar as canções dos outros, cansado de sentir o que os outros querem que ele sinta. Senta na banqueta diante da mesa com um arranjo velho de flores e restos do café da tarde em cima em sacos fechados. Desata a cantar versos quietos sobre seu violão acanhado.

Cícero é uma dessas boas surpresas nova música brasileira. Mas tu só vais conhecê-lo se for visitar seu apartamento.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Cícero: Canções de Apartamento

  1. Carla Dutra disse:

    Foi uma das resenhas mais bonitas que li sobre o disco até agora.
    É legal quando a resenha entra um pouco na filosofia da obra e não só disseca e conceitua tudo. Bonito mesmo.

    Esse disco com certeza é um clássico dessa geração que tem “vinte e poucos anos, classe média, anos 10’s” e não é por “nada” que anda sendo bem falado no Brasil, na Europa, em blogs gringos e elogiado não só pelo “padrinho” marcelo camelo (que convidou o cícero pra abrir seu maior show no Rio, no circo voador) como por figurões como Moska e Lenine.

    Esse garoto é de dentro pra fora e embora todo esse modismo “cícero é meu pastor e nada me faltará” esteja colocando ele numa “moda perigosa” acredito muito que ele veio pra ficar.

    Mas isso, todos nós só saberemos com o passar dos anos…

    Afinal, quem imaginava em 1999 que aquela banda que cantava Anna Julia ia ser algo além de uma bandinha capa da Capricho?

    • gilvas disse:

      acho que todo mundo anda apressado demais. os resenhistas inclusos. espero que a gente, empolgados, não estraguemos o garoto. espero que ele se torne parte de um ecossistema (é assim que escreve?). aliás, último o disco da céu saiu tão ruim. mas ainda acredito em uma cena legal no brasil.

  2. Bruno Capelas disse:

    Bacana teu comentário, Gilvas, fico feliz que a lista tenha agradado.

    Quanto ao Criolo: o único show que vi dele foi o do Terra, e também me desagradou muito. Ali, cantando pruma plateia acostumada com sucrilhos no prato, o discurso dele foi meio que pro ralo. Mas o disco é bom, e tem punch pra cacete – porém, entendo que tu não tenha curtido e o porque.

    Abração!

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