Franco Moretti: Signos e estilos da modernidade

Não se conversa com Franco Moretti em um boteco. O homem é capaz de nem estar vivo, embora não seja esta a morte que devemos comentar ou lamentar. E nem a morte, neste caso a da filosofia de boteco, seria de se debruçar sobre e com lágrimas; é improvável que tenham existido, fora do cinema europeu, diálogos como o que o italiano propõe.

É leviandade colocar um acadêmico do alcance de Moretti numa prateleira tão distante de sua importância no mundo da crítica literária. Entretanto, é desta forma que eu, um leitor trivial e de pouco método, consegue encará-lo.

A pompa do título brasileiro e de seu substítulo, respectivamente “Signos e estilos da modernidade” e “Ensaios sobre a sociologia das formas literárias”, pode ser o suficiente para uma pedante mediano erigir uma reputação. Se o supracitado sociopata resolve tentar absorver a nota explicativa sobre o título, constante deste volume, bom, ele pode fazer piruetas impressionantes em meio aos vinhos desavergonhados de um vernissage qualquer.

Este volume é uma coletânea de artigos cujo motto central é a crítica literária. Eles costumam funcionar melhor quando eu li os textos de que trata um dado artigo, mas esta condição não chega a ser mandatória: as boas idéias de Moretti podem encantar o leitor mesmo quando elas orbitam a obra de Sir Arthur Conan Doyle, por exemplo. O criador do detetive mais famoso do mundo nunca me atraiu o suficiente para que eu terminasse um livro seu.

Pela sua peculiar ótica marxista, Moretti enxerga os donos do capital em um monstro como Drácula, desfiando cada etapa da narrativa de Bram Stoker como um viés da esploração do proletariado. Chato? Não, não é nada chato. Frankenstein, a criatura, por seu turno, empresta sua feição ao trabalhador, e Moretti é tudo, menos óbvio.

Há capítulos que realmente não me encantaram. Particularmente, eu acho que você pode pular a A Alma e a Harpia, que trata da tragédia elisabetana e de seus pilares antepassados. Este artigo tem seus reflexos nos artigos sobre o romance, forma literária que me absorve de forma muito mais intensa do que a tragédia, mas você pode viver sem ele.

É uma pena que os intelectuais de boteco de hoje se prestem, em sua massiva maioria, a tratar de assuntos de relevância ínfima como os dribles de algum atleta com gosto duvidoso para cortes de cabelo. Discutir pela verve de Moretti seria bem mais interessante.

Um trecho, da página 173:

(…) E Holmes é exatamente isso: o grande médico da dos últimos vitorianos, que os convence de que a sociedade ainda é um grande organismo, um corpo unitário, que pode vir a ser conhecido. Sua “ciência” é simplesmente a ideologia deste organismo; louva o seu triunfo ligando instantaneamente trabalho e aparência externa (corpo, roupa), reafirmando a idéia da sociedade hierárquica que é externalizada, tradicionalista e fácil de controlar. Com efeito, Holmes personifica a ciência como bom senso ideológico, “bom senso sistematizado”. Degrada a ciência, assim como ela foi humilhada tanto pela estrutura produtiva inglesa quanto pelo sistema educacional na virada do século. Mas, ao mesmo tempo, exalta-a. A necessidade do mito da ciência foi sentida imediatamente pelo mundo que menos a produziu. A Inglaterra não chegou à segunda Revolução Industrial, mas inventou a ficção científica. (…)

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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