Buenos Aires

É fácil ser rabugento em Buenos Aires. Do ar livresco que exala a cidade consegue-se a desculpa, e dos turistas, de todas as nacionalidades, o combustível. Há ainda a inclinação, claro, e é ela quem permite que o rabugento aprecie a cidade em todos os seus matizes. Buenos Aires é um destino imperdível.

Permito-me o deslize, bem razoável, de me considerar um turista do tipo legal, e incluo minha Maricota no mesmo rarefeito grupo. Ao restante, deus, que escumalha. Parece-me que o turismo hoje seja apenas uma incansável e metódica busca por troféus. Uma espécie de corrida de aventura, um rally de regularidade. Esta percepção dolorosa foi afirmada e coroada dentro de cemitério da Recoleta.

Dezenas de néscios buscavam o túmulo de Evita Perón, deixando de lado toda a riqueza inenarrável da arquitetura e das belíssimas estátuas para “ir direto ao ponto”. Afinal, arquitetura é para poucos, de preferência para os profissionais da área. O restante dos seres humanos deve apenas marcar pontos atingidos num mapa. Bingo. Não me admiraria que algum dos lorpas tivesse a certeza de que Madonna estivesse enterrada na tumba da família Duarte, com Antonio Banderas a cortejá-la fantasmagoricamente ao longo daquelas alamedas pinceladas de gatos.

A capital federal dos portenhos tem lá seus problemas. A economia já foi bem mais poderosa, e as ruas já foram bem mais cuidadas. Pobres das estátuas da Recoleta, recobertas de fuligem, e coitadinha da Mafalda, sentada, sujinha de carvão, em seu banco de praça em Santelmo. Todavia, andar por lá, por si só, é encantador. A cidade respira livros, aspira formas em concreto antigo. O cotidiano de Buenos Aires, seus jornais nos cafés e suas medialunas, encantam-me.

Ser turista é permitir-se o silêncio, a discrição, embora todos reconheçam facilmente este brasileño mesmo quando ele não arrisca seu espanhol sofrível. A educação de lá sempre me confunde. Muito lixo na rua, e pouco receio em jogar mais. Taxistas em constante conflito com motoristas de ônibus. Pressa de alguns, pachorra de outros. Atendimento excelente em alguns lugares, fazendo jus às gorjetas, e tratamento seco em outros. Nada, enfim, que permita criar um estereótipo. Aliás, confesso que eu tinha a esperança de ver aqueles hermanos de costeletas e aquelas chicas de meias coloridas e chiquinhas nos cabelos, mas a moda lá já mudou. Pudera, são mais de vinte anos desde as invasões portenhas em Canasvieiras.

Há carros velhos. Velhos mesmo, não antigos. Carros podrões. Os carros novos recebem um tratamento vagamente europeu, o que significa, neste caso, que lata é para ser amaciada. Xinga-se no trânsito, e o pedestre é, antes de tudo, um sobrevivente. Ciclistas então, são guerreiros. E poucos vi de capacete ou outros acessórios de segurança. Baguais. Ou doidos.

Deixa estar, Buenos Aires, eu volto. Para te conhecer melhor.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Buenos Aires

  1. mafra disse:

    já estava com saudades.

  2. turnes disse:

    simplesmete adorável ser um bom turista em Buenos Aires.

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