A Maldição do Outdoor

A eternidade, relativa, adquirida através da fotografia pode ser uma maldição. Há quem não se relacione bem com a área frontal da lente de uma câmera fotográfica, e é bem provável que uma larga fatia dos leitores deste texto se contem dentro da esfera dos pouco fotogênicos. Este fato é alegórico, e ilustra-se por dezenas de chistes gráficos e adulterações movidas a software amplamente disponíveis na rede mundial de compra e venda e troca de arquivos de entretenimento.

Após um evento entre amigos, uma simples reunião em torno de meia-dúzia de garrafas de cerveja que seja, é comum o subseqüente compartilhamento dos registros fotográficos resultantes. Este documento histórico costuma ser compor uma compilação de lentes vagabundas, técnica fotográfica nula, sem falar na incapacitação, através do embotamento de base etílica, dos tiradores de foto.

Egos inflam-se nestas ocasiões. Há sempre quem encontre flagrantes que valorizam algum aspecto de sua própria pessoa, ciosa de atenção e consideração pelos pares humanos, o que se configura em uma das poucas formas de amor demonstrável nestes tempo bicudos.

Dentro da mesma imagem, mas no outro esxtremo do espectro, outro indivíduo fatamente irá esbarrar com representações bem menos gloriosas de sua combalida carcaça. Sorriso frouxo, posições relativas ambíguas, insinuações involuntárias, captura do rosto pelo ruim, vesguice temporária, incidência desastrosa da luz ambiente, estes são alguns dos males que afligem os desprovidos de fotogenia que ainda se arriscam a serem documentados.

Estando sozinho em uma fotografia, há uma dada probabilidade do indivíduo sair mal, e esta é a probabilidade total, neste caso. Havendo dois indivíduos, digamos, idêntica probabilidade de um deles sair mal, e, pelas combinações que Bayes poderia lhe explicar se estivesse vivo, a probabilidade total de que alguém na foto saia feio é maior. Esta combinação só piora conforme o grupo retratado aumenta.

Digamos agora que alguém saiu bem na foto. Como sói ao ser humano médio, esta pessoa vai mirar apenas a si mesma, sem reparar que o querido amigo, logo ao lado na fotografia, saiu parecido com o Shrek. O ponto é glorificar a si próprio, e a fotografia logo estará publicada no Facebook, com a divulgação poderosa típica dos eventos que nada agregam à humanidade. Sim, o registro patético do amigo irá de carona.

Outro agravante, agora retornando aos grupos, é a fotografia com fins de propaganda, algo que é notório em outdoors de colégios. Pode reparar, em um grupo de seis crianças, duas saem bonitinhas, duas ficam na média, e duas parecem ter saído do elenco de apoio de Colheita Maldita. Em relação ao exemplo anterior da festinha de amigos, o que piora, drasticamente, a vergonha sofrida é a ampliação da imagem, e sua exposição em locais movimentados. Trauma garantido, minha gente, ainda mais porque nunca alinham direito as peças do cartaz antes de colar sobre a madeira.

Vai por mim: por via das dúvidas, não aceite aquela oferta de semestre grátis em troca de usarem seu bacuri num outdoor do colégio de classe-média do seu bairro.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para A Maldição do Outdoor

  1. Demetrius disse:

    Saudades do bom e velho papel fotográfico, ampliadores e afins….
    Onde as fotos eram compartilhadas somente entre seus amigos e pessoas que tínhamos alguma espécie de afinidade.

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