John Updike: O Golpe

Você conhece Hakim Felix. Ele é um arquétipo do ditador de quem você não vê a cara em Hotel Uganda. Ele poderia ter servido de forma para o monstro carismático e infantilmente perigoso que Forest Whitaker interpreta em O Último Rei da Escócia. Ele está escondido em algum palácio semi-destruído em Diamante de Sangue.

Hakim Felix, também conhecido carinhosamente por sua namorada americana como “Happy”, protagoniza O Golpe. É difícil precisar se Updike fala do golpe que Felix executou ou do golpe de que Felix será uma espécie almofadada de vítima, mas creio que este livro não teria um título feliz caso se chamasse “Dois Golpes” ou mesmo “Alguns Golpes”. Para ser sincero, eu não gosto nem de “O Golpe”, mas nem todo mundo pode ser Kundera.

Updike, curiosamente, entra na seara de intrigas de onde Graham Greene tira a espinha dorsal de seus romances sempre recheados com prosa esperta e humor sutil. Sair da crônica de infidelidades para o romance político custa Updike boa parte de sua leveza mordaz. Os períodos são longos, e a alternância de primeira e terceira pessoa pesa um pouco, pede atenção; apesar disso, é necessária para representar adequadamente o pensamento de um ditador narcisista.

Agora que estamos distantes da Guerra Fria, é possível rir tranqüilamente com as patuscadas de russos e americanos, ardilosos entretanto, cada qual à sua moda. Mísseis, bases secretas, amantes, diplomatas ambiciosos incinerados, ajuda internacional, dependência do primeiro mundo, todos os ingredientes de uma boa narrativa oitentista estão aqui. Updike mostra as entranhas de uma ditadura trapalhona e sangrenta.

Voltando a Felix, é necessário sublinhar seu caráter carismático em contraponto a sua incansável faina ao se meter em patuscadas lamentáveis. Felix, um coronel de um exército colonial desmantelado, erra tanto que se torna didático para o novo ditador. Ironicamente, seus erros, de forma pouco divertida, acabam por garantir sua vida após sua derrubada.

O protagonista é descrito precisamente em suas cores difusas. Embora proveniente de um continente onde tudo é rudimentar, Felix absorve rapidamente a essência do pensamento ocidental, que execra em discursos inflamados e nem sempre eficazes. Abraça marxismo e o Corão, e faz brotar uma inesperada e surreal coerência entre estas duas linhas de pensamento.

Desconfortável durante quase toda a narrativa, ainda assim Updike brilha, e foge galhardamente do destino que Marquez profetizou para todo escritor, o de escrever e re-escrever sempre o mesmo livro, ainda que em cenários diferentes e com outros personagens. Aliás, Updike aplica até mesmo uma pitada de realismo fantástico em algumas passagens, como a cabeça do ditador. A sensação, entretanto, dura pouco; logo a farsa grosseira dos soviéticos é posta a perder. Todavia, ainda assim Felix caminha por sua própria trilha irreal, entre as tribos de uma África que nunca será compreendida ou dominada pelos brancos.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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