Gary Ross: Jogos Vorazes

Estive, nesta semana, na Saraiva, aquela meca de impressos supérfluos que se diz uma livraria, e me surpreendi com o tamanho da gôndola dos livros voltados ao público adolescente. Não deveria. Ir à Saraiva e me surpreender. Nesta ordem. o público adolescente é uma das fatias mais rentáveis do mercado editorial, e o indivíduo nesta faixa de idade tende a ser susceptível de fidelização canina a qualquer imbecilidade com um mínimo lustro de inteligência. Some a este contingente hordas de adultos disfuncionais beirando os trinta anos e ainda consumindo lixo de imberbes espinhentos, e o ROI vai saltar aos seus olhos.

Então, porque diabos eu cairia na armadilha de ver um filme como Jogos Vorazes? Este é um mistério que apenas a pipoca massiva e as promoções de terça-feira, sem falar no leque pobre de opções, podem resolver.

Jogos Vorazes começa perneta por conta da premissa frágil. A guerra é mal explicada, não dá para sacar direito a razão de existirem distritos pobres e uma burguesia rica, possivelmente egressa destes mesmos distritos, ou não, e por aí vai. O clássico Running Man, de onde esta bobagem teen teve sua premissa decalcada, tem um embasamento muito mais robusto. E um protagonista mais robusto também. Tanto em tamanho quanto em carisma.

As caracterizações são unidimensionais como convém ao um público que se empolga com Harry Potter e se emociona, de alguma forma, com Crepúsculo. Devo deixar bem claro que não li ou vi nada de nenhuma dessas franquias, e que estou me baseando apenas na análise sociológica dos fanáticos por elas. Donald Shutherland, por exemplo, como o presidente, paga as contas, e deixa no ar uma sensação de que estamos vendo um episódio anabolizado de Malhação com atores gringos.

Jennifer Lawrence consegue imprimir, à custa de atrozes esforços, alguma credibilidade à trama. Mas a pressão é demais para a mocinha, que recebe fogo amigo de canastrões de diversos matizes, incluindo aí Lenny Kravitz, como o seu estilista, também do seu mentor, o superestimado Woody Harrelson. Falar do elenco adolescente seria uma litania prolongada de impropérios que cansaria a mim e a você, estimado leitor. E o que diabos é aquela apresentadora hiper-maquiada com aqueles trejeitos ridículos? Inicialmente pensei em uma citação a Monteiro Lobato e sua imortal boneca Emília, mas logo vi que não passava de uma tentativa boba de parecer modernoso como O Quinto Elemento.

Os cenários e as bugigangas tecnológicas, itens primordiais de um filme que se pretenda ficção científica, minha gente, que pobreza de ideias. Os cenários são exuberantes, mas não empolgam, não criam a atmosfera necessária para o espectador entrar na fantasia. O filme, por sinal e por analogia, sofre de falta de cozimento: as partes não dialogam entre si, não existe uma fluidez cinematográfica, não há integração. O diretor deve ter sacado isto em algum momento, ou mesmo antes de começar a filmar, e tascou citações por todos os lados. Tem Lagoa Azul, tem Carruagens de Fogo, tem Quem Quer Ser Milionário, uma colcha de retalhos que talvez costure a si mesma apenas na cabeça de espectadores de reality show, mas que apenas acentua a falta de personalidade da película.

Um mérito a ser exaltado, entretanto, é a busca de compromisso com alguma realidade. A protagonista não é uma idiotinha qualquer que se transforma em uma caçadora fodona de repente. Katniss possui grande prática no arco e flecha, e mesmo assim erra o alvo na demonstração, por conta de seu nervosismo. Ela vencerá, pois todos sabem que ela é superior a todos os concorrentes. Os outros personagens, apesar do mal do unidimensionalismo descritivo, são coerentes com suas caracterizações. Peeta não deixa de ser a criatura limitada que é, e Cato é apenas um bonitão grandão e babaca bem treinado, e tudo ocorre de acordo com estas premissas firmes. Não há iluminação para os personagens neste filme, mas apenas o caminho inevitável que nos permitem as nossas limitações.

Como Matrix, o filme tem um final aberto. Katniss volta para o seu distrito de mãos dadas com Peeta, e encontra sua família e o amigo boa-pinta que ficou todo mimimimi ao vê-la pela televisão se enroscando com o “outro”. A revolta dos moradores do distrito 11 pode ter evoluído, ou não. São pontas deixadas para garantir uma continuação sem maiores traumas. Resta saber se um segundo filme se sustenta sobre as premissas derivadas desta primeira parte, que é bem fraca.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Gary Ross: Jogos Vorazes

  1. eu disse:

    Conhece aquela música do Raul que diz assim? “Eu prefiro ser uma metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”! Ou seja, a tua “opinião formada” pode te servir , mas não serve para os outros, graças à Deus! Se a livraria Saraiva não te serve, então procura aquelas bem chatas com livros “papo cabeça” bem chatos pra pessoas chatas como tu!!!

  2. emanuela disse:

    vai estudar um pouco de sociologia, vai te ajudar a entender a obra.É complexa demais pra você.

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