Um Futuro Livre

Desconheço a onomatopéia que representa o som de uma ficha finalmente se soltando dentro de um orelhão. Há quem desconheça o que seja um orelhão, a ficha que nele era inserida, o som da ficha conforme citado acima, ou mesmo o que diabos se fazia com um orelhão. Para isto tudo existe o mecanismo de busca mais famoso da internet e os sites de curiosidades sobre os anos oitenta. Divirta-se!

Tudo isso para comunicar a vocês, meus queridos leitores, que uma ficha enferrujada enfim caiu aqui dentro da minha cabeça. Metaforicamente, claro. Alguns meses atrás me propus a evitar consistentemente o consumo de carne de animais de criação, compromisso que tenho conseguido manter com relativa facilidade.

Os gracejos, entretanto, são inevitáveis. Quando provenientes de pessoas próximas, eles tomam a forma de argumentações propositalmente furadas. Uma das que mais tenho ouvido é a que preza pela preservação das vacas. Afinal, se não as criássemos para comer, elas não sobreviveriam num ambiente selvagem. Dado que a humanidade é seu predador único, as vacas deveriam agradecer, exercitando esta curiosa variação da Síndrome de Estocolmo.

Em paralelo, costumo prestar serviço voluntário para ajudar animais abandonados a se safarem das encrencas onde foram colocados por, olha que coincidência curiosa, seres humanos. Um dos objetivos principais de protetores de animais é evitar sua proliferação, resultando em menos cães e gatos nas ruas e em lares ingratos sofrendo uma existência miserável.

Os animais de criação poderiam ser extintos de bom grado. Provavelmente há ainda algum derivado que eu teria de buscar em algum lugar, mas nossos melhores amiguinhos, os laboratórios farmacêuticos, estas corporações de coração puro e desinteressado, poderiam mexer seus traseiros e criar substitutos ainda melhores e mais acessíveis, rescendendo ao cheiro delicioso e suave que exala um produto ético. Deveríamos pedir desculpas aos animais de criação à medida que eles fossem retornando aos seus formatos originais, desaparecendo aos poucos nas sombras dos parques florestais.

A National Geographic publicou uma reportagem excelente alguns tempos atrás. Versava sobre cachorros e alguma bobajada sobre utilidade. Sabe aquela coisa da sexta série, na aula de Ciências, onde a gente aprende a diferenciar os insetos úteis dos insetos inúteis, aquelas pragas? Então. Os cachorros são úteis, os velhinhos ficam super-felizes quando aquele cachorrão fofo vêm visitar o asilo ou o hospital. Deus, eu fico super-feliz quando vejo um cachorrão fofo.

O cachorrão fofo fica feliz quando me vê ou vê os velhinhos? Claro. Nós passamos décadas deformando cachorros para que eles gostassem de nós. Escorraçamos todos os que não gostavam de nós, expulsamos todos os que ousaram nos rosnar quando lhes fizemos algo inconveniente ou doloroso. Moldamos este amor doentio de tal forma que mesmo o mais injustiçado dos cães abandonados só consegue enxergar a redenção junto aos pés quase sempre hostis de um ponto de ônibus.

São cachorrões e cachorrinhos. Focinhos grandes, orelhas grandes, olhos esbugalhados, focinhos amassados, bochechas caídas, pêlo curto, rabo enrolado. Já parou para pensar que, se tivéssemos tamanha variedade dentro da raça humana, viveríamos em um monstruoso circo de aberrações?

Lembro da primeira vez que ouvi alguém falando de abolição dos animais, especificamente os de estimação. Soou esquisito aquilo. Afinal, eu amo meus cachorros e amo meus gatos, porque eles deveriam desaparecer do meu mundo? Entretanto, se as castrações persistirem, e as monstruosidades conhecidas como criadouros de animais forem restringidas, a tendência é que os animais de estimação desapareçam.

Uma analogia rápida pode ser feita com pássaros de gaiola. Um argumento típico é o que diz que “pássaros de gaiola, se forem soltos, morrerão lá fora, não sabem mais viver soltos”. É semelhante a dizer que “este terreno já foi degradado, já derrubaram a floresta que existia aqui, vamos construir um estacionamento de uma vez”.

Os cães de estimação ou de caça ou de guarda são aberrações moldadas pelo ser humano. Preservá-los não tem nada a ver com a bio-diversidade. Aliás, é o contrário: animais de estimação costumam dizimar populações de animais silvestres, como os gambás no Brasil ou os coalas na Austrália. A imbecilidade avança pelo mundo a passos largos, pois agora está na moda “domesticar” iguanas assim como já esteve na moda trazer para casa tartarugas ou furões. O ser humano consegue realmente estragar tudo.

A idéia é evoluir, então. Primeiro, já temos proteína à beça, não precisamos da carne das vaquinhas e dos porquinhos e dos franguinhos, e não precisamos do leite das fêmeas de outras espécies. Aliás, os derivados de animais nem mesmo fazem bem. Quando alguém me fala que tem intolerância a lactose, diabos, é tão óbvio: todos temos intolerância a lactose, em algum grau. Não é o leite de nossas mães, nem mesmo é o leite de uma fêmea de nossa espécie. Bom, não demora até algum cientista nota zero em ética criar uma vaca que dê leite idêntico ao humano. Obviamente não será aceito, afinal, é inaceitável bebermos leite humano.

Vacas na natureza? Morrerão todas! Tenho sérias dúvidas sobre a capacidade delas de se reproduzirem, inclusive. Depois de décadas de inseminação, o touro, coitado, vai achar que precisa usar uma luva de cinco dedos para penetrar sua parceira. Todavia, morrerão felizes, libertar-se-ão enfim da escravidão.

Já demorou para dizer adeus para os ponêis, os cavalos, as egüinhas pocotó. Chega de gorduchos gauchescos a montar pobres animais em estradas asfaltadas e lotadas de carros. Chega. E os cachorros e os gatos vão pelo mesmo caminho. Seus primos, eles precisam ter o seu habitat garantido. Os nossos mascotes, sei que isso dói, vão desaparecer. Virarão lendas, dado que não terão descendentes. Talvez sobrevivam, talvez se adaptem, mas o importante mesmo é que a humanidade aprenda a viver por conta, já que não sabe viver em harmonia com os outros animais.
***
Por hoje chega, mas você pode ler mais textos deste naipe aqui.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Um Futuro Livre

  1. E, os animais que vivem livres prestando os serviços ambientais e, servindo ao homem com seus produtos, sem sofrerem as mesmas restrições de outros animais domésticos como aqui em comento, como é o caso das abelhas nativas, onde se encaixam nesse contexto?

    • gilvas disse:

      excelente comentário, jean, e um embrião de uma discussão interessante. vamos lá: estas abelhas nativas são efetivamente livre, ou elas estão em caixas de criadores? são criadores no sentido do extrativismo puro do mel e subprodutos, ou são criadores que se preocupam com a perpetuação de espécies belíssimas de abelha sem ferrão? nossa interação com as abelhas é um dos poucos exemplos de harmonia entre ser humano e natureza, eu penso sem me aprofundar muito. elas polinizam as plantas que nos propiciam alimento, e nós as protegemos. mas protegemos mesmo? atualmente, a lavoura está carregadíssima de agrotóxicos e fertilizantes e outras porcarias químicas. as torres de celular e outras fontes de rádio-interferência grassam nos campos. há muito a fazer pela nossa cooperação com as abelhas. elas estão fazendo a parte delas, como louvor; e nós, como estamos tratando nossas amigas? abraço!

  2. Eu acho mais fácil a humanidade se extinguir antes, por uma série de fatores, sendo um deles o excesso de população por “burlarmos” a morte de várias maneiras. Entre elas a construção de casas, a vida não-nômade enfim, seres humanos foram feitos pra durar até a próxima catástrofe, doença ou falta de água/alimento. Mas isso é o que eu acho e tem uma infinidade de outras questões nada simplistas envolvidas nessa discussão. Apenas acho os argumentos expostos muito inocentes e utópicos perante à crueldade humana que se reflete em forma de lucro das grandes corporações.

    • gilvas disse:

      um post é pouco para descrever a miríade de descasos e descuidos em que a humanidade se envolve diuturnamente. minha pretensão é menor do que isto. todo texto é um começo; nós é que seguimos, de preferência em diante, depois dele.

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