Encruzilhada

Reparei, desde o começo da semana, que um carro da polícia rodoviária se posicionou na encruzilhada onde a Avenida da Saudade se bifurca nas rodovias SC401 e Admar Gonzaga. Junto com o carro, dois policiais montavam guarda, com o olhar voltado para a direção da Avenida da Saudade. Fiquei curioso, mas não entendi, na minha inocência, a razão específica pela qual havia um pequeno contingente ali.

Qual não foi minha alegria quando vi um C3 desgarrado, trafegando por fora da fila que costuma se formar, após as seis da tarde, na direção do Itacorubi. O motorista, seguidor ferrenho da Lei de Gerson, estava tentando cavar uma entrada na fila parada, mas foi admoestado pelo policial a seguir seu caminho original, ou seja, continuar pela SC401.

Primeiro, urra! A punição do Gerson é um prazer raro para o brasileiro comum. Os malandros pululam, e a lei não alcança o praticante deste banditismo inocente, de um viés romanticamente setentista, que acomete praticamente todo brasileiro. A alegria encheu meu coração com os eflúvios cálidos de uma vingança terceirizada, uma revanche pequena mas valiosa.

Ah, vá que o cara se enganou, tencionava ir para o Itacorubi, mas, diabos, se lembro apenas em cima da hora! Ou, pobrezinho, ingênuo, pensou que aquela fila era de algum enterro de morto súbito, daqueles famosos que se estragam muito quando pulam do prédio e precisam de enterro rápido. Desculpa, mas Poliana tem limite.

A sociedade exige uma forma, algumas regras. Você quer estar na sociedade, usufruir de seus direitos? Cumpra seus deveres. Coisa simples, sei, mas não é só aqui que tem de haver repressão para que os deveres sejam cumpridos. O Luiz Fernando Veríssimo, em um dos seus, aparentemente, raros escritos não-apócrifos, falava que o britânico vive tão atulhado de regras que não tinha jeito dele saber se era, ou não, virtuoso. O habitante do Reino Unido raramente tem oportunidade de fazer xixi fora do penico sem que um guardinha de preto venha interpelá-lo, apito em ação.

Imagina que espetáculo não ia ser uma tarde de multas nas estreitas ruas ao lado do Angeloni Beira-Mar? E aqui na Rodovia Amaro Antônio Vieira, onde o motorista do ônibus tem de se exceder em manobras arrojadas se quiser atravessar o mar de carros estacionados em locais indevidos? Confesso que eu pagava para ver. Era só convocar. “Sexta-feira, 16h00, Multaço na rua tal”. “Quarta-feira, 07h30, Caça ao Gerson na saída da Amaro Antônio Vieira, perto da Epagri”.

Sei, não vai rolar. Até porque estar logo no twitter. Que nem bafômetro na Lagoa. A malandragem continua.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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