RED

RED é um filme baseado em um gibi. De um bom escritor, Warren Ellis, embora não um dos meus prediletos. O escritor. O gibi eu nem li. O que não vem ao caso.

RED teve um daqueles complementos de título horrorosos que as distribuidoras brasileiras cismam em colocar nos filmes gringos. Em RED até que fazia sentido, dado que “RED” é uma sigla que só faz sentido em inglês. O que também não vem ao caso.

RED é um filme exagerado, algo de se esperar quando se trata de um filme baseado em um gibi. Ellis, além disso, é um escritor exagerado de gibis, sendo, inclusive, criticado por isso. Ellis adora metalinguagem e tem um humor peculiar, o que pode estragar a experiência de alguns expectadores em RED. Como tu já deves estar desconfiando, isto também não vem ao caso.

Os protagonistas em RED são agentes da CIA, ou satélites conceituais em torno da agência de inteligência dos EUA. Bruce Willis interpreta um desses aposentados. Ele flerta telefonicamente com seu interesse amoroso. A atriz foi bem escolhida. Há momentos em que ela apresenta facetas lindas, e, em outras, parece estar em uma média decepcionante.

O personagem de Willis tem colegas, ou amigos. Tem inimigos. Em quantidade bem maior do que amigos, você deve estar imaginando. E está certo. Você. A trama gira em torno de algo que aconteceu na Guatemala, décadas atrás. Sim, isto é um leve spoiler, e, dane-se, o filme é velho e todo mundo já viu.

Os aposentados do título vivem suas vidas de classe-média, fazem jardinagem e se entediam depois de uma vida de serviços prestados ao contribuinte norte-americano. Perfeitos cidadãos, com exceção de um deles, que continua fazendo uns bicos. Matando pessoas, você sabe.

Ellis é um iconoclasta, e transpor o assassinato para uma dimensão pefeitamente banal é um de seus artifícios dramáticos. Eu diria que é a essência do filme. Entretanto, RED incomoda quando se emprega um olhar que Barthes saberia classificar melhor do que eu, um olhar nos contornos da cena.

O personagem de Willis fala do que aconteceu na Guatemala. Um oficial mauricinho “saiu do controle” e matou todos os aldeões em “uma pequena vila”. O tal oficial, atualmente, é candidato a um cargo importante, e quer eliminar as testemunhas, ou seja, os agentes da CIA que presenciaram o massacre.

O ponto é como Róliúde consegue transformar monstros torturadores, que levaram a doutrina do livre-comércio a dezenas de países colonizados, em mocinhos de um filme improvável. A história contada pelo mocinho é quase comovente. Soa como “estávamos lá cuidando daquelas pessoas, ajudando velhinhas a atravessar a rua, quando este ponto fora da curva, este cachorro-louco, ele começou a atirar em pessoas inocentes”.

Talvez Ellis tenha sido irônico ao escolher seus protagonistas. Eles apenas seguem ordens, igualzinho ao agente mais novo, que os está caçando. E que tem uma família. Os agentes da CIA são todos humanos, vivem dentro de um subúrbio bem construído e com famílias funcionais. Sarcasmo, claro, só pode ser.

Trata-se de um filme para divertir pessoas, e não um documentário. Todavia, um filme, por mais bobo que seja, carrega sempre um viés ideológico, ou, por outro lado, serve para passar por cima de um viés ideológico. RED, especificamente, compacta toda uma era de tortura em uma embalagem cor-de-rosa estampada de ursinhos. Para sua diversão, claro.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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