Ridley Scott: Prometheus

Cineastas são animais curiosos. Ridley Scott é um cineasta. Desconheço o que o fez retornar ao universo que foi parcialmente responsável por seu envio ao topo da indústria do cinema, mas o ponto é que os resultados são desapontadores.

Prometheus é uma criatura de grandes atrativos visuais, mas que carece de substância. Não quero, com isso, colocar o filme de Scott no mesmo nível de Avatar, um dos ícones recentes do cinema enquanto algodão-doce. As motivações não são tão ingênuas, as tramas não são tão didáticas, os arquétipos não são tão bobos.

A partir deste momento, começam os spoilers, ou seja, quem ainda não viu o filme está avisado.

Scott, em algum lugar em seu âmago íntimo, não quer ser conhecido como um revisionista, não quer um segundo Alien em seu currículo. Isto fica claro, para mim, quando vejo que ele não usa “Alien” no título. Há o cuidado, entretanto, de situar a história cronologicamente em relação a Alien, o que coloca a humanidade dentro de naves que navegam entre sistemas solares junto com seres sintéticos quase perfeitos ainda antes da virada para o século XXII. O que, dado o atual interesse dos governantes em viagens espaciais, é bem improvável.

É um percalço bravo na vida do roteirista, mas não o suficiente para perdoar os furos absurdos na história. Doutora Shaw, que aqui faz as vezes da garota sobrevivente, é o epicentro da trama. Personagem fraco, ela não consegue fazer com que nada a orbite consistentemente.

São retomados vários elementos da série. Os conflitos na tripulação, logo de cara, soam artificiais e infundados. O pior, entretanto, é que eles não levam a encruzilhadas relevantes na trama, e parecem ter sido inseridos mais como texturas do que como motivações.

O uso da temática maternal é aplicado em quase todos os pontos-chave. “Maternal” talvez não seja o termo correto, pois o filme se esmera visceralmente, e disto isto de modo literal, em adentrar o feminino, a mulher. Algumas vezes, é usada a metáfora, como no estupro em que consiste a penetração do parasita no corpo do astronauta terráqueo e no do alienígena, este mais ao final do filme.

O vetor da inserção do Alien, ou uma forma alterada pela fisiologia diferenciada do alienígena, é uma vagina. Dentada, mas ainda uma vagina. Ainda que Scott não esteja explorando ideologicamente os conceitos, ele os apresenta como parte da sua estética, possivelmente para provocar um maior clima de horror.

Interessante observar que a maternidade e o feminino foram elementos explorados fortemente apenas a partir do segundo Alien, aquele em que Ripley encontra a filha dos colonos e a mãe Alien. O fato de ser uma mulher a sobreviver ao primeiro filme pode ser uma coincidência. Ou seja, é um fator que Scott não trabalhou em seu filme anterior.

Os elementos em si são atraentes, mas, assim como bons ingredientes podem resultar em um mau molho, Scott nos coloca um filme aquém das expectativas. Talvez as idéias centrais pudessem ter sido cozidas por mais tempo. A relação entre o pai babaca que inicialmente soa sonhador, o andróide que aspira a uma humanidade que a verdadeira filha renega, é uma rede de relações que poderia ter ganho formas mais claras e maior força se Scott não tivesse se concentrado apenas em fazer um filme lindo.

Os cuidados visuais são extremos. A coisa toda é de um bom gosto exemplar. Esqueçamos, claro, aspectos de verossimilhança técnica, assim como continuidade. Ficção científica e fantasia sempre andaram juntas, e os motivos para isto me parecem bastante óbvios, então é ingênuo o expectador que entra em uma sala de cinemão-pipoca a exigir respeito pelas leis da física ou factibilidade de construtos de engenharia. Convivo muito bem com este tipo de mentira, obrigado.

A beleza dos cenários e o realismo das criaturas vem acompanhado pelo amor aos espaços abertos. Esta opção rouba ao filme o que a série original possuí de mais poderoso como indutor de horror, a claustrofobia. Os belíssimos vôos, as paisagens imensas, as texturas irretocáveis, tudo isso impede que embarquemos no horror que este tipo esperado. Esta é uma das brochadas do filme.

Quando a garota sobrevivente embarca na espaçonave alienígena com o andróide decapitado, tive a esperança de que o próximo filme venha a preencher as expectativas dos fãs de Erich Von Daniken. Por ora, ficam as pontas soltas. Saber que há mais de uma nave e que o planeta deste filme não é o do primeiro Alien são fatores que permitem maior flexibilidade ao roteirista do próximo episódio.

Contudo, Scott toma uma decisão arriscada ao tornar os alienígenas gigantes humanóides. Nos gibis da Dark Horse, o formato do capacete do traje espacial do alienígena não é um capricho, mas um contorno natural de um rosto que pouco lembra o de um ser humano. Espero que Scott tenha uma boa surpresa guardada para o próximo filme, terá sido uma guinada em vão.

O alienígena de Scott, ainda que domine uma tecnologia fantástica, é movido por paixões equivalentes às do ser humano. O militarismo é um elemento claro, e imagino que haja uma separação também clara entre o alienígena que se lança às águas no começo do filme e o alienígena que parte para destruir o planeta ao final. Seria plausível que uma civilização alienígena contivesse facções, sendo parte do conjunto de habilidades do escritor de ficção científica criar e sustentar a individualidade entre os seres de outros planetas.

Esta resenha ficou bem mais longa do que eu havia planejado inicialmente, mas eu gostaria de reforçar que Prometheus merece qualquer piada infame que utilize qualquer conjugação do verbo “cumprir”. Ainda assim, tente ver no cinema, pois o que vale é justamente o espetáculo visual.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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