Naomi Klein: A Doutrina do Choque

Naomi Klein, ao publicar No Logo, garantiu seu posto de musa de todos os movimentos de esquerda contemporâneos. Ela poderia deixar o palco, e viver dos sub-produtos do livro, escrevendo artigos e revisando o bloco central. Minha expectativa, ao abrir A Doutrina do Choque, publicado pela Nova Fronteira em 2008, era baixa.

Trata-se de um equívoco, pois ela conseguiu de novo.

Klein, mais uma vez, lega ao mundo um novo mapa para compreensão do modus operandi das corporações e dos conservadores, conectando eventos aparentemente dissociados, como as operações ocorridas após o tsunami na Indonésia e arredores, e os golpes militares da década de 70 no Cone Sul.

O ponto de partida é uma apresentação concisa dos métodos de tortura desenvolvidos na década de 50. Em seguida, ela descreve a ampliação do campo de aplicação dos métodos, que, inicialmente usados em pessoas, passam, de forma pouco metafórica, a ser utilizados em nações.

Começa pelo Chile, o primeiro laboratório da Escola de Chicago, agremiação encabeçada por Milton Friedman, grande mentor das filosofias de livre-mercado que nos assolam desde metade do século XX. É interessante como Pinochet pode ser visto como um herói pro Friedman e alguns de seus seguidores, como Margaret Tatcher, e seu legado apontado como influência para os reformadores da antiga União Soviética.

Do Chile, passamos por Argentina, e depois pela Bolívia já nos anos 80. Observa-se a evolução dos métodos, a adaptação à predominância da mídia e sua óbvia manipulação, cercadas de muita corrupção e lucros obscenos. Klein destrincha ainda a invasão do Iraque, a liberdade roubada da Polônia, desembocando em tragédias recentes como o furacão Katrina.

O Neo-liberalismo é pintado em diversas locações, de forma didática para quem tenta entender e se mover dentro da nossa sociedade. Pouco se fala das privatizações ocorridas no Brasil, e mesmo do nosso golpe há pouco a declarar. Provavelmente porque os golpes na Argentina e no Chile foram mais significativos quando se trata de descrever o método dos filhotinhos de Friedman.

Entretanto, é possível, com o material apresentado, entender finalmente as maquinações da era FHC, o embuste que foi o Milagre Brasileiro e sua monstruosa dívida externa resultante, o modo como fomos expoliados pela “ajuda” do FMI, e a forma amarrada como as admnistrações petistas trabalham.

As fontes, dezenas delas, são citadas cuidadosamente ao final de cada capítulo, permitindo que cada episódio possa ser aprofundado. A tradução brasileira tem alguns errinhos, mas nada que comprometa a compreensão do tratado.

Leitura indispensável, enfim.

***

Durante meu MBA, fiz uma disciplina chamada Viabilidade de Projetos. Nela, usamos matemática financeira e contabilidade para verificar se determinadas propostas de projetos eram rentáveis, ou não. O ferramental serve para comparar diferentes projetos, de modo a podermos escolher quando uma empresa tiver dinheiro para investir apenas um projeto.

Nos exercícios que fazíamos com dados de vida real, plausíveis, era muito difícil que o retorno de investimento fosse superior ao de um fundo de renda fixa, por exemplo. A questão, então, era: Porque diabos eu vou investir em produção se dá mais lucro especular?

Uma das respostas é que a empresa tem de inovar, se renovar, manter sua competitividade com novos produtos e/ou serviços, ou será atropelada pelas ninfetinhas do mercado. Outra é que existe sinergia de novos projetos com os antigos, então há ganhos que a planilha de viabilidade não enxerga. Um terceiro ponto é que uma empresa demonstra saúde ao investir em novos projetos e novas idéias.

Aprendi, nesta disciplina e em quase todas as outras, que planilhas e indicadores nunca contam a história toda, e que é por isso que sempre necessitaremos do gerente de projeto para entender o que aqueles números todos significam. Levar planilhas ao pé da letra é um procedimento pobre.

Li certa vez, e acho que era uma frase de Albert Einstein, em que ele enunciava algo como “uma equação que possa ser compreendida provavelmente não descreve adequadamente uma realidade assim como uma equação que descreva a realidade provavelmente não poderá ser compreendida. Agradecerei efusivamente quem porventura encontrar a referência, mas o importante é o conceito que quero passar: planilhas nunca vão descrever uma realidade.

Entretanto, Milton Friedman e seus seguidores, assim como muitos utópicos do livre-mercado, acham que uma planilha pode, sim, descrever uma realidade. Sua visão de uma economia auto-regulada, sem intervenção do Estado, altamente competitiva, é algo que pode funcionar perfeitamente em modelos simplificados da realidade.

Entretanto, tal qual Marx, estes economistas esquecem de que estão lidando com seres humanos e que isto implica em uma tremenda complexidade. Falo de modelos realmente simplificados, mais simplórios do que um tabuleiro de Banco Imobiliário, por exemplo. Porque mesmo no Banco Imobiliário, onde não existe uma figura formal do Estado, há uma preocupação keynesiana.

Quando esta preocupação não existe, há um jogo que termina rápido e há pessoas que perdem de forma fragorosa. O Banco Imobiliário também regula o mercado, de certa forma, pois existe um limite na velocidade com que propriedades podem ser compradas. Algumas dessas regras podem ser alteradas ou eliminadas caso o grupo queira que o jogo termine mais rápido, mas “terminar o jogo”, no mundo real, tem conseqüências, se é que você me entende.

A Escola de Chicago gera monstros, enfim? Nem Goya poderia dizer, e é tentador apontar para a falta de humanidade nos modelos matemáticos, que são tão facilmente vendidos para uma sociedade que ansia por surpresas. A ciência, longe de gerar certezas, gera mais dúvidas, e creio Einstein também falou algo sobre isto. Certeza é o que buscam todas as pessoas, no frigir dos ovos, mas não é algo com que possamos contar. No mais das vezes, vivemos em intensa mudança, e não podemos prescindir de seres humanos vivos e reais para avaliar, compreender e só então aplicar os resultados de uma planilha.

A frieza das decisões econômicas, assim, poderia ser romanceada como em uma ficção científica, como nas máquinas da franquia Exterminador do Futuro. Entretanto, as máquinas não conseguem ser vilões tão cruéis quanto os Bushes e Rumsfelds da vida real. A elas falta o instinto da corrupção, esta malícia que irmana os monstros e os eleva a níveis inacreditáveis de crueldade.

***

A ajuda dos grandes gaviões norte-americanos aos países em desenvolvimento nunca mais será vista da mesma forma após a leitura deste livro. Fica ligado, olha o que está acontecendo, neste momento, com o nosso vizinho Paraguai.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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